terça-feira, 23 de agosto de 2011

CARTAS A NEOTÉFILO



Conversas sobre assessoria
para grupos de jovens

PRÓLOGO
Há muitos/as neotéfilos/as dando a vida e a criatividade deles para jovens e adolescentes, mas
pouco se fala deles/as ou para ele/as. “Neotéfilo” é um amante da juventude. Numa sociedade que não
aprendeu, ainda, a amar a juventude, os neotéfilos/as são muito importantes. Houve um tempo em que eu,
assim como a sociedade, tinha medo dos jovens. De fato, se formos atrás do que se fala ou do que se
mostra sobre a juventude, é loucura ser um/a neotéfilo/a. Contudo, a sociedade e os jovens precisam de
neotéfilos/as.
Estas cartas se dirigem aos neotéfilos/as. Neotéfilo é uma pessoa muito especial porque o mistério
o levou a amar e a querer amar sempre mais a juventude. Ser neotéfilo é saber alegrar-se com a novidade
encarnada em rapazes e meninas brotando como as rosas do jardim. Há quem teima em ver somente os
espinhos; outros ficam embasbacados com as pétalas que são seus filhos, suas filhas e se esquecem de dar
carinho, de regar, de podar e pôr adubos. Neotéfilo é um amante muito realista. Acompanha a flor em
todos os seus momentos. Há os que o/a chamam de “assessor/a”; há jovens que os chamam carinhosa ou
temerosamente de “tios”. Neotéfilo é tudo isso. Talvez seja um “tio” com vontade de ser “assessor/a”;
talvez seja um/a “assessor/a” com jeito de “tio”. O “tio” é da família... O assessor/a é quem deseja ser
“patota” mesmo não sendo da “patota”.
“Cartas para Neotéfilo” são cartas para quem vive e deseja viver a vocação de ser “acompanhante”
de grupos de jovens, a vocação de estar junto com jovens e adolescentes descobrindo a beleza da vida,
especialmente da vida em comunidade. O "jovem" e a “jovem” é um ser que descobre que somos “coletivos”
e que a felicidade mais profunda está fora de nós. Neotéfilo é um cicerone dessa aventura. É para ele/a
que vão essas cartas falando diversas coisas. Fala-se, por isso:
1) da situação social e eclesial dos assessores/as. É importante dar-nos conta de que plantar rosa
é bonito, mas exige trabalho e cuidado. Nem sempre os plantadores de rosas tem o apoio que
precisam;
2) da identidade do neotéfilo. Até sabemos que eles são importantes, mas o que é ser
“assessor/a”? o que é o “ministério da assessoria”? que “qualidades” ele/a deve ter?
3) dos desafios que o “assessor/a” precisa enfrentar. Apresentam-se, por isso, ângulos bonitos do
que é um plantador de rosas...
4) de uma qualidade muito carinhosa do “assessor/a” que é a animação. A “animação” é tão vital,
falar com as rosas é tão importante que, até, se misturam uma função e uma encarnação
temporária da animação chamado “animador”;
5) da mística do assessor/a. Trata-se de tentar dizer como deve ser o que chamamos de
“espiritualidade” do assessor/a. Mesmo que o dito seja pouco, é preciso balbuciar palavras que
ajudem outros a viverem um estado de espírito interior;
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6) das funções variadas dos variados neotéfilos que existem e devem aparecer para a alegria do
jardim ser mais completa;
7) da assessoria relacionando-se entranhadamente com o projeto de vida. Assim como todo jovem
sonhador de “autonomia” e de “protagonismo” pode ser enriquecido com seu projeto de vida
pensado, escrito e assumido, o mesmo vale para o “assessor/a”.
Caro Neotéfilo, o mais importante não é o que você vai ler mas aquilo que você vai sublinhar e
acrescentar.
Hilário Dick
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1ª carta
A SITUAÇÃO DO MINISTÉRIO DA ASSESSORIA
O mar agitado
não tem o direito de esconder o céu azul
Assim como você, Neotéfilo, também me pergunto, muitas vezes, sobre a situação do
ministério da assessoria no trabalho com a juventude. Em breve lançar-se-á, no Regional Sul 3, uma
pesquisa visando fazer um diagnóstico dessa realidade. Está difícil perceber qual a questão. Não está
claro se ela (a questão) vem por parte dos jovens, um segmento que representa uma “onda” em nossa
sociedade enfrentando muitos desafios, se é uma questão de percepção do exercício do ministério
sacerdotal, por parte dos presbíteros, ou se é uma questão eclesial, ante uma conjuntura que mostra
uma Igreja tonta ante os novos paradigmas, ou se há outras causas que nem sabemos exprimir. Para
iniciar, gostaria de dizer três coisas: 1) que o ministério da assessoria preocupa; 2) que o ministério da
assessoria oferece grandes alegrias; 3) que o ministério da assessoria deve fazer sonhar.
A assessoria preocupa
Não esqueço o clamor dos “delegados” da Pastoral da Juventude da América Latina no 2º
Congresso Latino-Americano, em Punta de Tralca, no Chile, em 1998. Já se estava na fase da votação
das conclusões. Quando se falou da necessidade do acompanhamento e da assessoria nos grupos de
jovens, a assembléia se levantou e aplaudiu. O desafio dizia: “Se se continua designando assessores
sem vocação, formação nem opção pelos jovens, dificultar-se-á o pôr em prática a proposta da
Pastoral da Juventude, porque esta proposta exige agentes não somente capacitados intelectualmente,
mas sobretudo, capazes de compreender a vida e o linguajar dos jovens e disponíveis para dedicar seu
tempo a essa tarefa”1. Lembro-me que me levantei, olhei aqueles 800 delegados e suspirei: “E ainda
há gente que pensa que os jovens não querem assessores e assessoras, que caminhem com eles!” O
acompanhamento e a assessoria são um grito dos jovens. Numa pesquisa junto aos grupos de jovens no
Rio Grande do Sul, em 2001, 71,5% deles dizia sentir falta da presença de assessores e somente 56,3%
dos grupos dizia que tinha assessoria.
A situação da assessoria, em termos gerais, me preocupa por um segundo motivo: que a
situação possa denotar o distanciamento da Igreja junto aos jovens. Distanciamento, em primeiro lugar,
por parte da hierarquia. Recordo-me da Conferência Episcopal de Medellin falando (quando tratam da
juventude e dos que trabalham com ela) da “necessidade de promover Centros de Estudo e
Investigação no que se refere à participação da juventude na solução dos problemas do
desenvolvimento” e dizendo “que se faça uma distribuição mais planejada dos sacerdotes,
possibilitando melhor atendimento dos movimentos de jovens” ou, então, “que se dê à formação de
assistentes de juventude (sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos) a importância que exerçam num
continente, onde a maioria é jovem”. Até me pergunto, Neotéfilo, se hoje em dia os nossos pastores
teriam a coragem de falar do ministério da assessoria aos jovens e de fazer novamente uma opção
afetiva (mesmo que não seja efetiva) pela juventude... Posso estar sendo cruel, não pensando numa
minoria que ama, de fato, a juventude, mas o discurso geral que consigo perceber é outro. Embora as
“Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil”2 tratem com cuidado da Pastoral da
1 Veja “II Congreso Latinoamericano de Jóvenes”, Punta de Tralca, 1998. Desafio nº 19.
2 Documentos da CNBB, nº 71. Vejam-se os nºs 24 e 198, de modo especial.
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Juventude em dois momentos (n.º 24 e n.º 198), não há referência à preocupação com a formação de
pessoas como você, Neotéfilo.
O distanciamento da Igreja com relação à juventude verifica-se, em segundo lugar, no mundo
dos presbíteros. Nos encontros de assessores e assessoras de anos passados percebiam-se uma presença
bonita e significativa de sacerdotes. Verificava-se um entusiasmo que deixou saudade. O que sucede
hoje? Quem são os padres que sabem, de fato, o que é uma Pastoral da Juventude ou que se encontram
para melhorar o exercício de evangelizadores no mundo juvenil? Talvez alguém diga que esse
ministério está sendo exercido por leigos e leigas. De fato, o aumento dos leigos e leigas nesse
ministério é uma grande novidade. Temos que reconhecer, contudo, que a “novidade”, na grande
maioria dos casos, não é por incentivo presbiteral. É a descoberta dos indivíduos sentindo-se chamados
para esse ministério, enfrentando antes resistências do que apoios por parte do clero. Não é uma
afirmação absoluta, negando a existência dos padres que fazem isso, mas não é o caso geral. Não
podemos esquecer a complementaridade da assessoria.
Um terceiro espaço onde se verifica o distanciamento da Igreja com relação aos jovens situa-se
no mundo dos religiosos e religiosas. Sei, Neotéfilo, que é duro dizer isso sabendo que são eles (os
religiosos e religiosas) que garantem várias instâncias na Pastoral da Juventude mas, no geral, essa é a
verdade. Se há tantas Congregações que têm como carisma o trabalho com a juventude, onde estão
elas? O que se percebe, muitas vezes, é que os próprios candidatos ou candidatas à vida religiosa não
são tratados/as como “jovens”... Sustentar colégios, por mais méritos que isso representa, não significa
estar próximo da juventude. Ainda mais quando se acredita que um dos grandes desafios no trabalho
com a juventude é ajudar para que ela assuma o seu protagonismo.
Um quarto aspecto do distanciamento da Igreja com relação aos jovens relaciona-se com a vida
nas dioceses. Quantas dioceses são capazes, hoje em dia, de pôr à disposição da juventude algum
padre? Em 1994, segundo dados da assessoria nacional, 90% das dioceses diziam ter assessor
diocesano. 5% deles dispunham de tempo integral e 10% eram semi-liberados; 85% acumulavam o
serviço da assessoria com outros trabalhos; 30% eram leigos, na maioria jovens voluntários. Os dados
atuais certamente serão outros. Uma tendência que se percebe é que o clero está deixando esse
ministério por conta dos “tios” e “tias” dos movimentos, cheios/as de boa vontade mas sem preparo
específico, desconhecedores/as da proposta da Igreja para a evangelização juvenil. Eles, em geral,
podem ser estar munidos de uma grande dedicação (amor) aos jovens (por causa dos filhos que têm)
mas não lhes são oferecidos momentos em que aprofundem, de fato, o processo de educação na fé.
Claro que há dioceses que estão numa caminhada linda, nesse aspecto, mas é mais do que evidente que
capítulos como o “protagonismo juvenil” e a “formação integral” ficam escondidos nas prateleiras,
mais por desconhecimento do que por má vontade ou postura ideológica (teológica). Não se pode
negar, no entanto, que é nesse campo que os “cenários de igreja” se manifestam em sua conflitividade
concreta.
O ministério da assessoria oferece alegrias
Você percebeu, caro Neotéfilo, que a “barra” está pesada. Há, contudo, motivos que nos
estimulam para a continuidade porque há razões para tal. Tentarei dizer por onde andam algumas
alegrias de minha parte.
Iniciarei falando dos “resultados”. Entendo como “resultados” o fato de ver homens e
mulheres, sacerdotes e religiosos/as serem testemunhas do Reino em muitas partes por causa do seu
amor à juventude. Estou convencido de que poucas “instituições” formaram, para a sociedade e a
Igreja, lideranças como a Pastoral da Juventude. Lembro-me, com alegria, da minha colega de trabalho
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voltando de um encontro sobre Políticas Públicas para a Juventude, em São Paulo, dizer-me com
admiração: “70% daqueles participantes diziam de boca cheia que sua experiência decisiva foi a
participação nos grupos de jovens da Pastoral da Juventude...” Poderia citar-lhe muitos nomes de
jovens que assessorei e que, agora, me superaram trabalhando em diferentes campos da sociedade e da
Igreja. Um abraço deles/as ou uma visita deles/as, com seus sorrisos agradecidos, não há nada que
substitua.
Foi, em segundo lugar, por causa do ministério da assessoria que foram aparecendo, em vários
lugares do Brasil e da América Latina, Centros de Apoio aos jovens e assessores. Não vou citar local
ou pessoas porque seria um pouco delicado. Basta dar uma olhada nos diferentes tipos de Cursos para
Assessores que foram e estão pipocando no meio de dificuldades e entusiasmos. Perceber pessoas
assumindo responsabilidades locais, regionais e nacionais em vista de um projeto pastoral que
amadureceram, é algo que ninguém explica.
Uma terceira alegria que me atrevo a citar é o avanço decidido de uma preocupação mais
científica (não só pastoral) no trabalho com a juventude. Dizer que o único Curso de Pós-Graduação
em Juventude é fruto de assessores da Pastoral da Juventude, é um orgulho. O verdadeiro neotéfilo não
fica girando em torno da sacristia. Ele tem um coração “missionário”, indo ao encontro de todos os
gritos da juventude. Claro que isso é, ainda, uma utopia, mas uma utopia que já tem ninhos concretos
em muitos lugares.
Uma quarta alegria coloca-se no mundo da generosidade que há neste trabalho. Ter
disponibilidade relaciona-se com generosidade, com doação, com dar a vida pela juventude. Lembrome
de nossos “mártires” como o P. Florisvaldo Orlando, o Pe. Albano Trinks, o Frei Jessé... Lembrome
de tantos que não encontram desculpas para dizerem “não”. O que me comove são figuras de leigos
e leigas que, além do trabalho de sobrevivência, puxam parte significativa de seus recursos para
dedicar-se à juventude. Todos sabemos, Neotéfilo, que trabalhar com jovens não dá dinheiro. Pelo
contrário, você paga para trabalhar... Estou convencido que isso não é o ideal para uma Igreja que tem
recursos para outras coisas. Há leigos e leigas que nos dão um banho de gratuidade.
Uma outra alegria que me dá o ministério da assessoria é dar-me conta que na proposta
pedagógica da Pastoral da Juventude há muita mão de “pedagogos”, isto é, de neotéfilos que, de mãos
dadas com as mais diversificadas lideranças juvenis, foram capazes de sistematizar o que considero o
que há de mais maduro e mais completo no serviço da evangelização juvenil. É com esse pano de
fundo que leio “Civilização do Amor – Tarefa e Esperança” e é com esse pano de fundo que procuro
ler as conclusões das assembléias em seus diversos níveis. Uma Pastoral da Juventude, mesmo sendo
dos jovens, é uma caminhada bonita de acompanhante e acompanhado, de jovem e de adulto, de
sacramentos da novidade abraçados a conhecidos e desconhecidos neotéfilos espalhados por ali.
Uma última alegria que experimento, prezado Neotéfilo, é recordar como a assessoria, na
Pastoral da Juventude, foi-se afirmando como “ministério”. Mais do que uma mera “função”, trata-se
de viver uma “vocação”. Recordo, de modo especial, nessa dimensão, figuras como Tere Lanzagorta,
do México; Carmem Lúcia Teixeira, de Pires do Rio (Goiás), de Dom Julio Bonino (do Uruguai)
falando da espiritualidade do assessor, do Pe. Horácio Penengo, do Uruguai e de Dom Bráulio Sãez
Garcia (Bolívia). Não me foge da memória a figura alegre deste bispo discorrrendo, pela primeira vez,
em Zipaquirá (Colombia), sobre a assessoria como ministério. Por vir da parte de um bispo, o
momento foi especial. A descoberta da assessoria como ministério foi-se dando aos poucos, em muitos
lugares. Um dos espaços que não posso deixar de citar é o Curso de Assessores de Jovens (Porto
Alegre) e, dentro desse espaço, as figuras do Ir. Cláudio Rockenbach, de José Lino Hack, do Pe. Jorge
Boran, do Pe. Hugo Bersch, da Ir. Enedina Pierdoná, da Ir. Augusta Ghisleni e muitos outros/as
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neotéfilos até a medula dos ossos. Isso se deu, principalmente, nos anos de 1990. Ainda hoje me
comovo percebendo a “revelação” que significou a oração do assessor e da assessora da Pastoral da
Juventude. Num abrir e fechar de olhos, essa reza se espalhou pela Pátria Grande...
A assessoria leva a sonhar...
O ministério da assessoria, caro Neotéfilo, tem uma outra faceta. Ele também faz sonhar... Faz
sonhar, em primeiro lugar, com a juventude como sendo uma causa. Como escreve o poeta Thiago de
Mello, “não somos nem melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é nossa causa”. Para trabalhar
com jovens é preciso que a juventude seja uma causa. Pela “causa” a gente dá muito; até a própria
vida. A “causa” caminha com a gente em toda parte: no coração, na cabeça e no bolso. A “causa” faz
sonhar.
Uma segunda faceta do ministério da assessoria nos leva a olhar para a Igreja. Até dizem que a
Igreja é a juventude do mundo. Na Conferência Episcopal de Medellin diz-se que “a Igreja vê na
juventude a constante renovação da vida da humanidade e descobre nela um sinal de Si mesma”. Mais
ainda: na mensagem do Concílio Vaticano II aos jovens diz-se que “a Igreja é a verdadeira juventude
do mundo” ou, então, “a juventude é o símbolo da Igreja, chamada a uma constante renovação de si
mesmo, a um contínuo rejuvenescimento”. Fico pensando, então, na figura do Papa João Paulo II. É
com a juventude que ele se encontra sistematicamente para beber dela, em nome da Igreja, o vigor de
não ser velha e bolorenta. Essas coisas, Neotéfilo, me fazem sonhar e ter esperança.
Olhemos, por isso, as nossas comunidades. Em qualquer lugar... Vão ser muito raras as
paróquias em que não se vejam os jovens animando a catequese, a crisma e outras coisas mais. Vamos
ver que a juventude até se presta para ser mão-de-obra barata de párocos que perderam o senso da
novidade verdadeira. E me lembro, então, dos jovens como “agentes vitalizantes” da sociedade, de que
fala Mannheim e das sociedades incapazes de renovar-se com a ajuda da juventude. Quem, senão os
jovens, são capazes de propor Escolas de Liturgia e Escolas de Bíblia para jovens? Até estou pensando
que se deveria pensar em “Escolas de Catequese” para jovens...
Um outro fato que me leva a sonhar é o espírito missionário da juventude. Não se trata tanto de
viajar para outros continentes, como fazem tantas instituições movidas mais pelo espírito das
“benesses” do que pelo espírito de querer encontrar-se com outras realidades. Impressiona-me
encontrar jovens de diversos países, morando em periferias, para ser “evangelizadores”. Deixam a
família, os estudos e se mandam, sem medo do desconhecido e das dificuldades, para ser presença
junto aos mais necessitados. Não existe coisa mais linda do que poder ajudar os jovens a abraçarem a
sua história, a sua autonomia e serem eles mesmos, movidos pela força da doação. Por isso digo,
Neotéfilo, que a juventude deve ser uma causa, que o grupo de jovem levado com paciência, alegria e
pedagogia é o lugar da felicidade do jovem. Você já experimentou isso, não é verdade? Estava
pensando nesses sonhos voltando de um encontro de final de semana com 200 adolescentes
irrequietos, cheios de vida, expiando pela porta da juventude.
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2ª carta
A IDENTIDADE DO ASSESSOR/A DE JOVENS
O serviço é mais bonito
quando se sabe o sonho do serviço
Falar da identidade do assessor ou da assessora de um grupo de jovens ou de uma Pastoral ou
de um movimento de jovens não é tão simples como parece ser nem é tão complicado como corremos
o risco de imaginar essa “figura”. Devemos ter clareza, contudo, sobre várias coisas. Lembro-me do
Genésio e do Silfredo vindo, pela primeira vez, para um Encontro Regional de Assessores da Pastoral
da Juventude. Os dois são pais de adolescentes, fizeram o Encontro de Casais com Cristo, são
simpáticos, idealistas, descobriram-se “amantes” da igreja-comunidade e o pároco pediu-lhes para
participarem, lá na capital, de um Encontro Regional de Assessores da Pastoral da Juventude. Lá se
foram eles, com todo entusiasmo, para essa nova aventura. Além de nunca terem estado na capital, era
a primeira vez que iriam participar de um encontro assim. Mesmo com toda disposição, de toda
comunicabilidade deles, eles se sentiram, de repente, como peixes fora da água. Procuram ser ótimos
pais, procuram acompanhar o grupo de jovens de sua paróquia, descobriram há pouco que a igreja não
é só dos padres, estão com vontade doida de ajudar aquela “gurizada” mas sentiram-se, de repente,
tomando água, com risco de se afogarem...
Essa situação não é irreal. É muito concreta. A situação suscita muitas perguntas e vou tentar
expressar algumas. A primeira pergunta que faço, é: Eles estavam no lugar certo? O que é um “lugar
certo”? O problema é que o pessoal não os soube acolher? O que significaria, neste caso, “acolher”?
Acho, contudo, que é preciso deixar de perguntar e fazer duas afirmações:
1) o assessor/a é uma pessoa que vive um processo de assessoria. Para ser assessor/a não
basta, por exemplo, ser pai de família, ter certa idade. Pode ser muito bom, mas não basta.
Não basta, para ser assessor, ser padre, ser religioso ou religiosa. Pode ser muito bom, mas
não basta. Bastaria se valesse a “nomeação” ou a “indicação”.
2) Há critérios (nem sempre escritos nem sempre explicitados) que definem um assessor/a
pelo que é e pelo que acredita. Alguém pode ser assessor/a para uma “instituição” mas não
para uma outra. Alguns critérios que podem ajudar: a) que ele seja um militante da fé cristã,
na teoria e na prática; b) que ele seja alguém que entende de “processo de educação na fé”
de um grupo, de uma “instituição” e de uma pessoa; c) que ele seja um militante da
“instituição” na qual trabalha, pensando-a e planejando-a; d) que ele (assessor/a) seja uma
presença, esteja aí nos altos e baixos, nos momentos mais e menos decisivos.
Para ser assessor/a de alguma “instituição” não basta ter boa vontade, mas a boa vontade é
fundamental; não basta saber um “mundo de coisas” sobre essa tal de “instituição”, mas é preciso
envolver-se nesta “instituição”, lutar por ela e seus objetivos; não basta querer trabalhar nesta
“instituição”, é preciso ser e fazer-se reconhecido por ela. E outras coisas mais...
Caro Neotéfilo, falar da identidade do assessor/a de jovens nem sempre é tão evidente... O que
aconteceu com seu Genésio e seu Silfredo? O problema estaria, por acaso, com o pároco que não
soube escolher, dentro do seu ministério, os “assessores” acertados? O problema estaria em eles serem
“assessores” de uma determinada “instituição” e que foram participar de um encontro de outra
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“instituição”? “Mas eles querem aprender a trabalhar com jovens!” – pode dizer alguém. Certo! E
trabalhar com jovens, que exigências oferece? Todos pensam as mesmas coisas quando se fala de
evangelização juvenil?
Todos querem e precisam de assessores...
Muita gente, na sua profissão, serve-se de assessores. Até pagam bem... O ministro tem seus
assessores; o presidente tem seus assessores; o deputado tem seus assessores; o empresário tem seus
assessores... O que pensa um bispo, o que pensa um diretor de colégio, o que pensa um pároco quando
chama alguém para ser “assessor dos grupos de jovens”, assim como Genésio e Silfredo? O que pensa
a “gurizada” quando, junto com eles, caminha um “tio” ou uma “tia” que diz gostar deles e gostaria de
estar junto com eles porque o pároco pediu, porque também tem filhos da idade deles, porque outros
“tios” pediram para eles exercerem este “ministério”? Um “assessor” entende de quê? Um “assessor”
serve para quê? O pároco tem, na sua comunidade, um grupo de “terceira idade” e ele não dispõem
nem de tempo nem de jeito para trabalhar com terceira idade. A quem ele vai chamar para serem
“assessores”?
Fica claro que a sociedade em geral (profissionais, instituições, movimentos, partidos etc.)
precisa muito de “assessores/as”. Gente que faça a acertar melhor nos seus objetivos, gente que ajude a
ter sucesso nos seus empreendimentos. Ninguém escapa disso, nem o grupo de jovens, nem a Pastoral
da Juventude, ninguém. De vez em quando os tais de “assessores/as” chamam outros “entendidos”
para os assessorar... Vamos chamá-los de “assessores” ou de “peritos”? Todos nos damos conta que
não são a mesma coisa e que um é diferente do outro... A diferença é que um está na “assessoria” todo
dia; o outro, porque tem experiência ou é “especialista” nalgum assunto, está aí para ser “consultado”.
Fica claro, em segundo lugar, que o/a “assessor/a” está no cotidiano da “coisa” e não é, simplesmente,
um “perito” chamado somente em certos momentos para alguns aspectos. O “assessor/a” do qual
queremos falar está no cotidiano, está no “processo” da coisa. Alguém que sabe e acompanha o que a
empresa faz, os problemas que a empresa enfrenta e está aí, para “assessorar” visando o melhor. Nesse
sentido pensamos no “assessor/a”, pedagogo, que caminha junto com, sente responsabilidade com a
caminhada, gosta das “coisas” acontecendo. Talvez seja bem pago, talvez não ganhe nada, mas gosta...
Um bom “assessor/a” que só está aí porque ganha bem é diferente daquele que está aí porque isso o faz
feliz.
História da “assessoria”
Caro Neotéfilo, essas questões são fundamentais e mexem na nossa vida de “assessor/a”.
Vamos olhar o assunto sobre um outro prisma, entrando diretamente no trabalho com a “assessoria” no
serviço de evangelização dos jovens, numa perspectiva de Igreja. Como aparece nos cenários de Igreja
essa figura do “assessor” e da “assessora” de jovens? Parece-nos que podemos distinguir três “tipos”.
O “assessor” aparece, primeiramente, como o “diretor”. O “diretor espiritual”, dizem alguns...
Isso aconteceu nas Congregações Marianas, isso acontece com “movimentos” que você conhece, isso
não é coisa do passado. Esse “diretor” é a encarnação de um cenário de Igreja e de “Congregação”. O
diretor é nomeado por alguém, manda, é padre, decide. Ele é mais do que “diretor espiritual”; ele é o
dono daquela espiritualidade. Também vivi isso; vocês também sabem dessas realidades.
Avançando um pouco na história e olhando em derredor, descobrimos uma segunda figura de
“assessor”. Chamam-no “assistente” ou “assistente eclesiástico”. É nomeado pelo bispo e tem que ser
padre. Assim foi no tempo da Ação Católica. Os religiosos e religiosas (não padres) não podiam ser
“assistentes”; eles eram “adjuntos”. Embora mande e decida, manda e decide menos...Os “leigos”
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pertencentes à Ação Católica, com algum poder de articulação e organização recebiam dos pastores o
“mandato”... Não agiam em função da vocação batismal mas em função do exercício a serviço da
hierarquia.
Mas a história foi avançando... A terceira figura do “assessor” chega, enfim, à figura do
“assessor/a” como tal. Ele depende, ainda, de alguma nomeação clerical, mas em proporções
“menores”, menos “controladas”. Está aí para ser presença mais pedagógica e menos “doutrinal”. Até
hoje há lugares, contudo, em que o “assessor” deve ser do clero, mesmo que eleito ou indicado pelas
“bases”. A aceitação do “leigo” ou até do “religioso” ou “religiosa” como “assessor/a” diocesano
também não está, ainda, totalmente tranqüila. Verificam-se curtos circuitos em mais lugares do que se
imagina.
A pergunta que, neste contexto, podemos repetir é: Para quê os pastores ou os vigários ou as
“instituições” chamam, ou não chamam, os “assessores? O que os move, de fato? É o medo de perder
o controle da “situação”, da “empresa” ou é a vontade decidida de prestar um verdadeiro serviço de
evangelização, “oficializando” um ministério? É por esses mares que navegamos, ainda hoje. Há
coisas que se chocam e se complementam: a nomeação, o preparo e a vocação; há três realidades,
também, que se complementam ou deveriam complementar-se no campo da assessoria: o papel do
sacerdote, o papel do religioso e o papel do leigo/a.
Assessores/as da Pastoral da Juventude
Quando falamos de “assessores/as”, aqui, queremos referir-nos a “assessores/as” de uma
instituição chamada Pastoral da Juventude como uma proposta evangelizadora com seu modelo de
Igreja, de sociedade e de pessoa humana; com sua proposta pedagógica na qual acredita, com seu
método no qual confia e com sua espiritualidade que procura incentivar; com sua organização que leva
ao exercício do empoderamento juvenil, que vise a formação de cidadãos comprometidos com a
realidade social e econômica e que sabe que nem todos os caminhos levam à felicidade coletiva.
Falando de identidade do assessor/a de jovens ou de grupos de jovens tudo isso deve ser tomado em
conta. Não se pode ser assessor da Pastoral da Juventude sem ter firmeza nessas pilastras. Mesmo que
o “assessor/a” tenha vontade de levar seu “carisma” para dentro de uma realidade eclesial mais ampla,
ele deve ter clareza tanto do seu “carisma” como da “instituição” eclesial na qual deseja inserir-se.
A assessoria compreendida na terceira acepção do conceito de “assessor” é o assunto que vai
ser objeto de descrição e análise, de agora em diante.
Assessoria como ministério eclesial
A primeira grande descoberta é a da assessoria como ministério eclesial. A assessoria não é
uma mera função com determinadas “atividades”. Não se trata somente de “fazer” coisas, mas de “ser”
alguém numa Igreja toda ela ministerial. Sabemos que na igreja-comunidade há muitos “serviços” que
a comunidade precisa e reconhece. O “ministério” visa a edificação da comunidade inserida na
sociedade, sentindo o chamado de anunciar e viver o Evangelho, despertando a fé, celebrando os
sacramentos, santificando a vida, servindo a sociedade e contribuindo para a construção da justiça e da
fraternidade3. Um destes “ministérios” é o trabalho de assessoria junto à evangelização da juventude.
Nesse sentido, na dimensão teológico-pastoral, o assessor/a da Pastoral da Juventude é uma
pessoa chamada por Deus para exercer o ministério a serviço dos jovens, assumindo esse ministério
como opção pessoal, como envio de Igreja e como aceitação (busca, reconhecimento) por parte dos
3 Valemo-nos, aqui, de “Assessoria e Acompanhamento na Pastoral da Juventude”. São Paulo: CCJ, 1994.
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jovens. Por isso que afirmamos, em primeiro lugar, que a assessoria é um chamado. Um chamado que
se fundamenta 1) em Jesus Cristo, vivendo seu projeto como sacerdote, profeta e rei; 2) na
ministerialidade da Igreja chamada ser serviço; 3) no caráter batismal que leva todo e qualquer
batizado à participação da ministerialidade da Igreja; 4) na opção preferencial pelos jovens, escolhidos
como “causa” para a qual se sente chamado a dedicar o melhor de sua vida, dentro da comunidade.
Além de viver um chamado, o assessor/a vive uma missão a ser vivida junto aos jovens em suas
diferentes especificidades. Como Jesus, cabe ao assessor viver seu ministério como profeta, lendo os
sinais da realidade e da cultura juvenil, denunciando as opressões que a juventude vive e anunciandolhes
o caminho da conversão, da felicidade e da fé na Igreja e na sociedade; cabe ao assessor/a de
jovens, também, viver o ministério da celebração, celebrando a realidade na qual serve, oferecendo seu
testemunho e assumindo, junto com os jovens, a realidade que vivem em forma de oração; cabe ao
assessor, em terceiro lugar, viver o ministério de criador de comunidades que crescem na fé, se
organizam e fazem vigorar, na realidade específica, a igreja como sacramento do Reino.
Estas “coisas”, caro Neotéfilo, não são acidentais. Elas fazem a personalidade teológica do
assessor/a. Ter convicção nessas “coisas”, para quem quiser trabalhar na assessoria de uma Pastoral da
Juventude, é sagrado. Caso contrário, corremos o risco de viver na superficialidade do mistério. Quero
dizer-lhe mais - prezado Neotéfilo: isso é um processo; isso é um travessia que se aceita ou não se
aceita empreender.
Mística...
Além da dimensão teológico-pastoral que precisa ser descoberta e vivida, temos a dimensão
espiritual. O ministério da assessoria anseia, por isso, em segundo lugar, por alguém que seja uma
pessoa de fé, vivendo uma espiritualidade que se expressa na relação pessoal com o Pai/Mãe que o/a
chama, com Jesus Cristo que se torna nele (no assessor/a) sempre mais seu caminho e com o Espírito
Santo que o move a ser, como Deus, serviço, vivendo no cotidiano essa dimensão transcendental
banhada pela confrontação com a realidade, especialmente a realidade de pobreza e exclusão. A opção
pelos jovens faz parte, do ministério da assessoria, fazendo como Deus, em Jesus Cristo. O assessor
olha a realidade juvenil, faz uma aliança com o jovem e vê Deus amando a todos, mas de modo
especial os jovens e os jovens pobres, e é capaz de contemplar, nesta realidade explosiva, uma
realidade divina com vontade de se revelar.
Pessoa de fé
A vivência de fé do assessor/a já tem caminho; seu projeto de vida já não está nos seus
primeiros passos; já conquistou a riqueza do discernimento e, por isso, pode-se dizer que a coerência
do assessor/a é consistente, sua fé já tem raízes e já carrega o vigor de um acompanhante. Não se
imagina um assessor pronto: imagina-se um assessor que já teve tempo de deixar-se calejar por Deus e
pelo mistério da vida. Para ser assessor/a leva-se tempo; um tempo misterioso que se trai por aquilo
que o “tempo” colocou nele. Quem deixa Deus trabalhar nele, tem mais condições de perceber o sabor
de sua caminhada na vida dos jovens.
Psicologicamente “sentado”
Como vê, Neotéfilo, estamos falando do “ser” do assessor/a; não tanto do seu “fazer”. A
dimensão psicológica acrescenta, por isso, outras riquezas a serem cultivadas. Embora ninguém possa
dizer-se “amadurecido” psicologicamente, chega o tempo em que o assessor/a, com toda simplicidade,
tem a licença de ser uma “presença” firme, carinhosa e desafiante. Ajuda nisso o projeto de vida; ajuda
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nisso o confronto refletido com a realidade; ajuda nisso uma curiosidade paciente com o fenômeno
juvenil. O assessor/a, por mais identificado que esteja com o mundo juvenil, não é um jovem a mais.
Ele é alguém capaz de uma palavra diferente, de uma atitude diferente mas que vai ao encontro do que
o jovem sonha ver em alguém mais vivido. Não se trata de ser “psicólogo” de canudo; trata-se de
perceber fenômenos da psicologia manifestando-se na vida dos jovens. Ser maduro não significa não
estar na travessia, é saber remar.
Pedagogo
Tudo que foi dito até agora é bonito; maravilhoso, no entanto, é ter convicção que o assessor/a
é um pedagogo. Como diz o dicionário, um “prático da educação” da fé. Perceber a educação da fé
como um processo, perceber a vivência das opções pedagógicas como um processo, perceber que a
militância se coloca na geografia do processo, perceber que a vocacionalidade se encarna na vivência
de um processo, perceber que a experiência de Deus das pessoas é um processo, isso é maravilhoso.
Por isso que digo, Neotéfilo, que o assessor é especialmente um pedagogo. Alguém que acompanha a
construção de pessoas e de grupos. É muito mais do que ser um didata; é ser companheiro/a; é ser
alguém que caminha junto, assim como Deus que caminhava na frente e atrás de seu povo... O
assessor/a carrega dento de si uma proposta convidando respostas. O assessor/a é alguém que fez
aliança com os jovens e é fiel nessa aliança, como Deus. O assessor é um educador a partir da vida e
para a vida. É teoria e prática. Adivinha sentido no que os próprios jovens, autores da ação, não
descobriram. Como é bela sua vocação, Neotéfilo!
Na estrada do social
Além do que falamos tem outra dimensão importante na identidade do assessor/a da Pastoral da
Juventude. Além de tudo, o assessor/a é uma pessoa encarnada na realidade social, com um profundo
sentido de pertença a esta realidade. Sente empatia com a realidade, especialmente do jovem. Chora, ri,
sofre... É um ator social. A realidade o convoca... Denuncia, anuncia, tem coração de pobre. Torna-se
protagonista na transformação do ambiente em que vive. Identifica-se com a realidade que vive seja
ela do meio educacional, profissional, comunitário... não interessa. Participa e leva outros a
participarem. Também como pertencente à Igreja, não fica indiferente. Não fica indefinido, não
sabendo distinguir e sistematizar o cenário de Igreja que vive e encontra. O assessor/a não fica
“perdido” em sua realidade de grupo. Acompanha as articulações, discute com colegas de ministério,
participa de equipes de assessores/as. Não é um isolado que trabalha com jovens; é um cidadão que
sabe manifestar-se e posicionar-se.
Como você vê, Neotéfilo, falar do “ser” do assessor/a é falar, por assim dizer, da mística que o
move. Se acrescentássemos a tudo isso o amor à juventude, a capacidade de morrer ou “desaparecer”
como João Batista e outros dados sobre os quais desejamos falar em outro momento, aí está o que
caracteriza um neotéfilo. Consideramos um problema alguém desejar ser assessor e não pensar nessas
coisas e não ter vontade de alimentar-se de uma utopia.
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3ª carta
OS DESAFIOS DE SER ASSESSOR
Uma grande causa supõe grandes desafios.
Sonhar pequeno não leva a grandes realizações
Falar de “assessoria” é falar de uma atitude de vida. Corre-se o perigo, por isso, de dar
conselhos, de dizer coisas “corriqueiras” que se vive mas ninguém ensina. Ser “assessor/a” é viver
uma aventura que dá a alegria e a felicidade da aventura, isto é, que não serve para quase nada. A
assessoria à Pastoral da Juventude ou, melhor, para os grupos de jovens é uma responsabilidade de
educador assumida gratuitamente e, por isso, não é um peso. Quando é um “peso” algo não está bem
porque deixou de ser alegria. A vivência da assessoria aos grupos de jovens é um estilo de vida que
ninguém mandou abraçar. É a expressão do amor a uma causa que escolhi. Assim como a vida do
casal, a assessoria é um processo de felicidade e realização que se vai vivendo e dá uma sabor especial
para a vida. Ninguém sabe explicar, no fundo, porque casou ou não casou. É vontade de ser feliz, de
construir felicidade e nada mais. Com todas as conseqüências que essa decisão traz consigo. Falar de
assessoria, prezado Neotéfilo, é falar de uma atitude de vida. Às vezes de forma repetitiva, mordendo o
rabo mais uma vez, mas avançando Toda vida não é assim?
A “assessoria” tem um significado polissêmico. Significa várias coisas. É-se assessor de grupo,
é-se assessor de vários grupos da comunidade, é-se assessor em nível de diocese etc. Mais ainda: há
assessores/as que trabalham com estudantes, outros com gente pobre de vila, outros com grupos mais
do centro, outros com jovens da roça, outros com universitários. É-se o mesmo de diferentes formas.
E, contudo, não podemos ser “especialistas” em tudo... Precisamos abraçar a identidade que mais nos
fala porque não somos assessores somente de um grupo; somos assessores de uma realidade que
precisa ser a expressão do Reino, no jeito e na realidade. Não se constróem personalidades falando
somente de Deus e da afetividade; jovens; as personalidades precisam abraçar seu “mundo” e torná-lo
Reino.
Precisamos falar, por isso, caro Neotéfilo, de algumas exigências de felicidade da vivência da
assessoria. Para um ministério ser fonte de felicidade deve obedecer a certos critérios objetivos que
resultam em alegria de viver e de se doar. É sobre estas exigências ou estes desafios que gostaria de
falar agora para você. São diferentes águas que bebemos para sermos felizes em nosso ministério. Vou
falar de alguns e você pode acrescentar outros.
1. O ministério da assesssoria aos grupos de jovens pede amor à juventude.
Um amor diferente do amor que se tem aos pais, aos adultos e às crianças. Gosto de dizer que a
juventude, para o assessor/a deve ser uma “causa”. Uma “causa” que me acompanha sempre, que me
incomoda, que me alegra, que me desafia, que me faz crescer. Amar a juventude é gostar de um
segmento, é gostar de tudo que são e sofrem, é gostar... As razões são sempre mais profundas, em
todos os aspectos. Não é que os jovens sejam “mais”; eles são a “causa” que dá sabor à vida. Olho,
acompanho, leio, participo, pergunto, vibro, choro, estudo porque são jovens, nada mais. Assim como
sou capaz de abraçar essa realidade, pesquiso sobre ela e quero conhece-la sempre mais. Se isso falta,
provavelmente não fui chamado para exercer meu “ministério” ali porque a realidade não penetra no
mais fundo de mim. A assessoria penetra nas entranhas...
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2. O ministério da assessoria supõe uma proposta de vida.
O ministério da assessoria não é vazio nem mudo; ele tem, caro Neotéfilo, algo a transmitir; ele
tem algo de muito bom a implantar no coração da juventude. Esse “algo” se chama proposta global. Aí
está uma Teologia, aí está uma Pedagogia, aí está uma Espiritualidade, aí está uma Organização, aí
está um modo de ser, aí esta uma Política, uma Economia. Um lar para o qual deseja convidar a todos.
O ministério da assessoria faz sonhar com a pessoa que desejo ser mas também com o cidadão e a
cidadã feliz que a sociedade precisa. O assessor é alguém que sabe onde está a fonte do mel... e quer
que todos saboreiem, do seu jeito, a doçura da vida. Não será bom assessor quem não carregar dentro
de si uma proposta de pessoa, uma proposta de sociedade, uma proposta de comunidade, uma proposta
de sentido. Não que ele vá impor essa sua proposta: ele vai oferecê-la com tudo que é, com o
entusiasmo que a proposta lhe infunde. Sente, dentro de si, essa liberdade e essa obrigação.
3. O ministério da assessoria caracteriza-se pela presença.
O ministério da assessoria, em terceiro lugar, caracteriza-se pela presença. “Assessor”, aliás, vem
de “ad” + “sedere” = sentar-se junto com. Ele está ao lado; caminha com. Os grupos de jovens não
querem alguém que mande, alguém que decide por eles. Eles querem um “companheiro/a”. Alguém
que não sabe alegrar-se em “estar junto” precisa pedir a graça da assessoria. Sempre digo, prezado
Neotéfilo, que os jovens não querem muito; eles simplesmente querem que estejamos com eles de
corpo e alma, alegrando-se com eles, auxiliando-nos no que precisarem, discutindo com eles. Nem
sempre temos consciência da importância desse gesto simples de doação. Não se trata de estar aí como
barata tonta. Os jovens sabem quando a gente está simplesmente de corpo e não de modo íntegro. Por
isso falamos de “assessoria” e de “acompanhamento”. Não é a mesma coisa, mas os dois se
complementam. Claro que a “liturgia” do acompanhamento tem novos ingredientes, exigindo mais
psicologia e mais discernimento, mas o acompanhamento é um aspecto da assessoria. Em toda a
pessoa moram aspectos de “assessor/a” e de acompanhante. Estou convencido, por exemplo, que um
bom grupo de jovens é um dos melhores “acompanhantes” dos participantes desse grupo. O desafio é
ser uma presença significativa. Ser “significativo” depende do que sei e dos motivos de vida que
carrego em mim. Não estou convencido que os jovens e adolescentes de hoje não precisam de
“modelos”. Precisam, admiram e gostam.
4. O ministério da assessoria não se vive só.
Um outro aspecto do ministério da assessoria é que ele não é vivido de forma isolada. O bom
assessor/a procura caminhar e crescer junto com outros “assessores/as” para celebrar seu ministério,
para trocar experiências, para pedir ajuda, para conviver. Como é sagrado, Neotéfilo, encontrar-se e
viver e celebrar e alegrar-se com a juventude crescendo em liberdade, sabedoria e graça...Como é
lindo, Neotéfilo, celebrar juntos, como servos, o mistério da juventude no mundo. Daí se depreende a
importância que se dá, na Pastoral da Juventude, às equipes de assessores nas diversas instâncias. Até
se falava, um tempo, da complementaridade na assessoria de sacerdotes junto com a assessoria de
leigos/as e de religiosos/as. Há facetas que se tornam mais bonitas quando complementadas por outros.
As formas de tornar isso realidade não têm regras. É a equipe que vai decidir isso. Não precisam ser
muitos encontros. O importante é que o assessor/a se encontre em equipe. Umas vezes para conviver;
outras vezes para trocar experiências; outras vezes para estudar. Sempre para celebrar.
5. O ministério da assessoria exige participação.
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Muitas vezes fiquei pensando porque os Encontros de Assessores são sempre bons. É que são
momentos de sonhar juntos o mesmo sonho. Um assessor/a que não se dá o tempo de participar das
atividades dos jovens em encontros, assembléias, passeios, retiros não está no melhor caminho. A
palavra na qual quero insistir, Neotéfilo, é “participar”. É participando que se saboreia a felicidade de
ser assessor/a. Participar é associar-se pelo pensamento e pelo sentimento. O bom assessor/a, por isso,
é um curioso, um desejoso de saber. Lê livros sobre juventude, lê boletins que os jovens produzem, lê
relatórios de encontros e assembléias. O bom assessor/a “participa” e encontra formas de priorizar
essas participações. É diabólico não ter vontade de participar. Isso exige planejamento; isso exige
liberdade; isso exige ter amor a uma causa.
6. O ministério da assessoria pede identidade.
Outro desafio para ser um bom assessor/a é ter clareza sobre a identidade do que é ser assessor/a.
Como já se disse, não se trata somente de exercer certas funções; trata-se de um modo de ser,
convencido de que essa atitude, essa presença, esse silêncio, esse apoio, essa palavra... são importantes
e ajudam a construir outras pessoas. A assessoria não é algo estático; não é uma gaveta que a gente
puxa em certos momentos. A assessoria vai-se fazendo na travessia, distribuindo discursos sem
palavras, espalhando músicas sem caixas de som... Isso não é algo que vem de fora; isso brota do
interior que cada um é e tem, sem preocupações em guardá-lo só para si. É como a semente que morre;
é como a beleza de dar lugar ao outro.
7. O ministério da assessoria exige encarnação.
Um outro aspecto da assessoria como desafio é a encarnação do assessor/a nas diversas realidades
que vive e acompanha. Se o ministério da assessoria se dá com estudantes, fundamental é que o campo
da educação esteja no assessor/a; se o ministério da assessoria se dá com jovens da roça, é fundamental
que a realidade do campo tenha um lugar muito forte no assessor/a. Trata-se de não somente entender
de “juventude” mas entender de “realidade” em que os jovens estão mergulhados no seu dia-a-dia. É o
que Jesus fez toda a vida, permanecendo a maior parte de sua vida encafuado na realidade de Nazaré...
O assessor/a precisa ser um militante da realidade que acompanha; não somente da realidade que
representa. Um militante de realidade universitária, de realidade rural, de realidade “comunitária”; um
militante de Igreja vivendo no mundo; um militante de sociedade banhada com os valores do Reino. É
ser “diretor espiritual” no sentido mais completo e mais integral.
Como você pode ver, Neotéfilo, é uma missão muito bonita essa do ministério da assessoria.
Exigente como o amor, escancarada como a esperança e enraizada como a fé. Pensando no que faz e
no modo como o faz, vá acrescentando outros desafios e outras descobertas que a vida já lhe ensinou.
O que vai dito talvez seja um simples aperitivo...
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4ª carta
ASSESSORIA E ANIMAÇÃO
Na travessia se encontra o corpo de quem caminha
e a alma do corpo que não deixa de caminhar.
Amigo Neotéfilo, o acompanhamento aos grupos de jovens, assim como os acompanhamentos
personalizados, dentro da Pastoral da Juventude, são um desafio que necessita ser enfrentado por você
com decisão e alegria. É bonito ver como a Pastoral da Juventude assume o acompanhamento como
uma opção pedagógica! Não deixe de assumi-la com o mesmo entusiasmo. Significa que estamos
tratando de um assunto importante. De um modo de ser. De um modo de trabalhar. De uma crença
numa forma importante de intervenção no campo da evangelização da juventude. O acompanhamento
coloca-se no campo da educação. E nada mais importante que a educação da pessoa humana. É, ao
mesmo tempo, uma atitude e uma prática.
Houve um tempo em que, para falar do serviço da “animação” se falava de “assessoria
jovem”. O que se queria era falar de um personagem que vinha surgindo em lideranças mais vividas
dos grupos e o termo que apareceu foi “animador”. Apesar de algumas sistematizações, as coisas ainda
não estão claras. As coisas de Deus levam tempo para serem digeridas... Vem-se falando de
“animador/a” - diferente de “coordenador/a” - e a clareza quanto à identidade desse personagem já se
torna mais nítida, apesar de um tropel de perguntas, dúvidas e questionamentos. Algumas coisas estão
claras: 1) precisa-se de acompanhamento; 2) não podemos deixar de promover o protagonismo dos
jovens; 3) faltam assessores em geral e assessores preparados. O assessor não poderia viver, também,
um processo de formação, especialmente quando essas “figuras” surgem dos próprios grupos? O que é
certo é que vamos vivendo, na Pastoral da Juventude, um processo de descobertas. A realidade não é
estática. Há aspectos que precisam nascer e aspectos que exigem revisão e aprofundamento. Uma
dessas novidades é a realidade do “animador”. Ao mesmo tempo que se fala de uma “figura”, leia
essas considerações como sendo, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de uma característica do
assessor/a. Fazendo essa “combinação” de conceitos gostaria de chamar a atenção: 1) para a assessoria
como um processo, onde a animação é importante, mas secundária, não mexendo na descrição de uma
“figura” chamada “animador/a”; 2) para a “figura” de alguém que se vai iniciando na assessoria,
pedindo “tempo”, “experiência” etc. não assumindo o papel, a “figura” de assessor/a, uma
responsabilidade considerada “forte” demais por razões nem sempre explicáveis. Poderíamos dizer que
o animador/a é a encarnação de alguém que está em processo de assessoria.
Partindo de outros
Tomemos em mão duas reflexões: 1) a que está sistematizada em “Civilização do Amor -
Tarefa e Esperança”4 e 2) um artigo de Joilson de Souza Toledo, que se encontra na revista PJ a
Caminho (n.º 74, 1998). O que se afirma na publicação da Seção Juventude, do CELAM, é muito
significativo5. Falando dos “agentes que participam mais diretamente do cuidado diligente e diário da
Pastoral da Juventude”, o livro cita quatro figuras: o animador, o assessor, o pároco e o bispo. Sem
faltar ao respeito, acredito que aqui há uma confusão porque deixa a entender que o fato de ser
“pároco” ou “bispo” isso os leva a ser “ipso facto” assessores. O que não é verdade. Deixa claro,
4 “Civilização do Amor - Tarefa e Esperança. Orientações para a Pastoral da Juventude Latino-Americana”. Seção Juventude do
CELAM. São Paulo: Paulinas, São Paulo, 1997.
5 Veja-se obra citada, p.272-275.
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também, que o animador, em primeiro lugar, é um jovem leigo, o que não deixa de ser verdade, mas
não toda a verdade. Não é um adulto e nem é coordenador; não é religioso/a, mas leigo, o que é
verdade, mas não toda a verdade6. Descreve muito bem o que seja “animar”, explorando a riqueza
semântica deste verbo. Outra parte que desenvolve refere-se a algumas características do animador.
As nove características citadas são muito abrangentes. É, de fato, uma forma de descrever o serviço da
animação na Pastoral da Juventude.
Outra verdade evidente é que a “figura” que se deseja descrever localiza-se na geografia de
uma “experiência formadora”, deixando a entender que o animador é alguém que exerce um
ministério no contexto da formação, em sentido amplo. Em grande parte, é verdade. Trabalha-se para
se preparar uma “segunda figura” que existe na personalidade do animador/a. Parece que o
“animador/a”, assim como o “coordenador/a”, não tem fim em si. Estão, essencialmente, em transição.
O animador/a e o coordenador/a não chegam; estão sempre a caminho. Seriam diferentes, nisso, do
“assessor”. Por mais estranho que pareça, o “assessor” é uma figura que, apesar de sempre poder
melhorar, “chegou”, isto é, não está em transição. Está numa outra travessia... Pelo fato de estarmos
frente a um “processo” não se trata de alguém ser mais ou menos; o “animador/a” e o “assessor/a”
estão vivendo a sua plenitude em “momentos” diferentes.
O artigo de Joilson de Souza Toledo, intitula-se “Assessoria Leiga Jovem”. Mudando o título
para “Animador”, teríamos uma descrição, quase perfeita, daquilo que é, não o “Assessor Leigo
Jovem” mas, sim, o animador. Ensaia a descrição do perfil do “assessor leigo jovem”, como diz o
título do artigo, (que mudamos para “animador”) desenvolvendo sete pontos: 1) é um discípulo de
Jesus; 2) está em sintonia com a proposta da Pastoral da Juventude; 3) é uma presença significativa; 4)
é alguém que ouve; 5) é alguém que faz ponte; 6) é alguém que questiona e propõe; 7) é alguém que
colabora na formação permanente. Na concepção que tentamos construir de “animador” esta descrição
é excelente, mas falta algo com a vivência madura de fé, de projeto de vida, de “tempo” vivido.
Desejamos, por isso, acrescentar um aspecto diverso: que todo assessor deve ser um
animador/a, com a diferença que um e outro se distinguem pela idade, pela maturidade, pelos anos
vividos. Isso não é dramático; isso é lindo! Estamos falando de “atitude”, de “postura” ou, até, da
espiritualidade ou da mística do animador/a. Releia-se o que Joilson escreve e veja-se, atrás do que
consegue expressar, a figura de um educador/a (de um assessor/a) em formação. Um estilo
“provisório” de vida. Uma forma de ser, em crescimento. Uma vocação que se vai vivendo e
amadurecendo.
Tentando acrescentar aspectos
Claro que as “funções” do “animador/a” ou do assessor/a (especificamente como animador/a)
são importantes, Neotéfilo. Mais importante, contudo, é a “alma” com que se exercem estas funções.
É, por isso, que gostaríamos de avançar um pouco além daquilo que o artigo de Joilson e a
apresentação da Seção Juventude do CELAM sugerem e dizem. Procuramos ter, em nossa frente,
figuras muito concretas de “animadores/as” – assim como você - metidos numa prática generosa,
perguntando-se, inquietos, se eles estão frente à possibilidade de ser assessor/a. Trata-se, portanto, de
ajudar a descobrir uma identidade. Uma identidade que não é só pessoal; é eclesial e comunitária. Não
se trata de alguém puramente pedagógico; trata-se de alguém que também é teológico. Um modo
divino de ser... O mesmo fenômeno acontece em sacerdotes, leigos/as e religiosos/as. Cheguei a
pensar, nalgumas vezes, vendo esse processo realizando-se em pessoas concretas, que o teológico da
6 Não concordamos que o animador/a seja somente leigo/a. Pensamos nos religiosos jovens e em tantas religiosas em formação.
Pensamos, também, nos seminaristas. Por que estas figuras não poderiam ser animadores? O simples fato de pertencerem ao “clero”
esses agentes pastorais se colocariam, naturalmente, no serviço da assessoria?
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figura do assessor atrapalha – para alguns “animadores” - assusta, incomoda porque exige uma adesão
muito forte. O assunto, no entanto, não é somente de formação teológica.
Eu com eu não basta
Ser “animador/a” de grupo (tanto no sentido de “figura” como de “característica”) significa,
Neotéfilo, ter fome e sede do comunitário. Ele (o animador/a) acredita no grupo e ama a vivência
grupal porque nela se esconde felicidade. Realização. Crescimento. Acredita que, no grupo, o jovem
(seu colega mais novo) se encontra com as utopias e as necessárias frustrações. É comunitário porque
sabe, sente e afirma que a fé cristã não se vive sozinho/a. Descobriu que a graça batismal lhe conferiu
uma missão carregada de alegrias e compromissos, isto é, construir comunidade. Não somos,
unicamente, comunitários; fomos feitos para construir comunidades. Vai-se rolando, por isso, (o/a
animador/a) na sabedoria do Deus que é Trindade e se orgulha em dizer que a Trindade é a melhor
comunidade e que todos sonhamos ser como Ela. Ser criador de comunidade exige, igualmente, o
reconhecimento da comunidade e há “qualidades” que a comunidade, mesmo de forma inconsciente,
mas com razão, exige da “figura”. Também os jovens.
Como é bom acompanhar!
Joilson fala de “presença significativa” do animador/a e de alguém que sabe escutar. Ser e
aprender a ser presença... Os jovens precisam de presenças e a “presença” é uma conquista. Na
pedagogia espiritual falamos, por exemplo, de “acompanhamento”. Todos - também os jovens -
precisamos de acompanhantes. Quem é reconhecido como “acompanhante”? Acompanhar significa “ir
em companhia de”, “seguir a mesma direção”, “observar a marcha”, “ser da mesma política”,
“participar dos mesmos sentimentos”, orientar. O acompanhamento, nesse sentido, é uma lição a ser
aprendida. Talvez a mais fascinante do animador/a. Inspira-se, igualmente, em Deus acompanhando o
povo de Deus. Às vezes Ele ia na frente; outras vezes atrás, mas acompanhava. Até nos momentos dos
piores erros. Consolava e castigava; ria e chorava; sabia das necessidades do povo. O
acompanhamento desafia porque não tolera acomodação e pressupõe resistência. O animador/a é
alguém que se dispõe a ser um aprendiz de acompanhamento porque sabe que a sabedoria também
vem com o tempo.
Só serve quem vive para servir...
Prezado Neotéfilo, no mais íntimo do animador/a mora um lavador/a de pés, um enxugador/a
de lágrimas, um muro de fraternidade, um construtor/a de utopias. Isso supõe um aprendizado. Na
caminhada que vai fazendo ele (o/a animador/a) descobre a diferença do poder-poder e do poderserviço,
a diferença de fazer sozinho e de fazer junto com os outros, a necessidade que o povo tem de
poder, mas um poder que se veste de serviço desinteressado e gratuito. Vai aprendendo que gastar
dinheiro para trabalhar também realiza e carrega realização. Não sabe muito, ainda, do que é serviço
mas, cada vez que sabe que serviu, experimenta uma alegria tão bonita que só as lágrimas do coração
expressam. Vai aprendendo isso do coração da Bíblia: a Eucaristia. Jesus foi assim, não é verdade?
Jesus, no entanto, também teve que aprender a ser Messias.
“Morro de curiosidade”
Um animador/a que não é curioso/a até pode achar que é animador/a, mas não é. Trata-se de
uma curiosidade “específica” que se traduz nalguns campos de curiosidade. Um destes campos,
sempre mais próximo e sempre mais assumido, é tudo que significa Pastoral da Juventude. Tudo lhe
interessa e encontra mil formas de saber o mais possível de eventos, de discussões, de artigos, de
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brigas, de acontecidos e acontecendo na Pastoral da Juventude, de experiências partilhadas. Outra
curiosidade que assusta um pouco todo animador/a, é a Teologia. Tudo que se refere à fé, encanta e
atemoriza. Assim como a menina/o bonita/o que deseja conquistar seu/sua companheira/o de vida.
Todo animador/a de qualquer pastoral sabe muito bem que a Teologia não fica fora do seu jardim. Se
ela entra, exige resposta. O animador/a sabe que se quer ser animador/a, precisa dar testemunho de um
mundo de coisas porque este “mundo de coisas” é a vivência cristã. Morre de curiosidade mas sabe
que pode queimar os dedos do coração. Sabe que é chato ser “aparência”. O animador/a que não vive
nessa teimosia de saber mais das coisas da Vida, falta muito para caminhar.
Amante do novo
O jovem não é só o diferente, amigo Neotéfilo; ele é a expressão da novidade. O animador/a
que não sabe ruminar, dia e noite, essa realidade do mastigar e ruminar o jovem que é e o jovem que
ele está deixando de ser - na sua descoberta do “novo”, talvez esteja enganado no que está querendo
abraçar. Não significa concordar com tudo. Muitas vezes é ir além do próprio jovem, em busca de si
mesmo. Ser animador/a não é ser “juvenilista” (querer ser o que a idade não mais permite); é entender
progressivamente tudo que o jovem é sob os mais diferentes pontos de vista, principalmente como
filho de Deus e imagem e semelhança da eterna novidade da vida. Aí está uma das maiores graças do
animador como “figura” e como característica do assessor/a. Fica evidente que a idade o ajuda a estar
mais próximo das expressões de novidade que os jovens vivem e expressam, mas de repente não basta.
O segredo é transformar isso em lição de vida. Os jovens não deixam de ser os professores/as onde o
animador/a fica sentado/a, feliz, no banco de escola...
Muito além do umbigo mora um missionário
Se há uma expressão que precisa ser dita para o animador/a, esta expressão é “apaixonado da
fé”. Basta olhar para os que conhecemos. Como se explica isso e mais aquilo se não soubermos ver,
atrás de tudo, um apaixonado/a das coisas da vida, com cheiro de Deus? Por isso o animador/a vai
carregado/a de propostas alternativas, fundadas no Evangelho que começou a conhecer. Por isso o
espírito missionário que o arrasta e o faz contagiar. Sente-se feito para o ministério da missão. Carrega
em si a paixão do missionário. Não há mares que o seguram. É verdade que as ondas assustam, mas ele
é como o cão que já experimentou o gosto da lebre... Para ele não há obstáculos. Pela proposta que é e
vive, ele tem mel que atrai. O animador vai além de um só grupo; ele contagia outros grupos. Nem
sempre vai para “fazer”; muitas vezes vai por ir porque ser presença é ser, também, gratuidade.
Concluindo
Este é um pequeno retrato do “interior” do/a animador/a e da animação no ministério da
assessoria. Meu irmão Neotéfilo, quando dentro da gente não mora um grande sonhador/a, não somos
capazes de alimentar utopias em ninguém. Muito menos no jovem que, sendo presente, é esperança.
Tente juntar esta reflexão com as anteriores (citadas) e verá que a neblina está deixando a estrada. Já é
hora de correr mais (não demais) porque, lá, naquele alto e naquele vale, há muito sentido de jovem
esperando por isso tudo que o/a animador/a representa para essa enxurrada de grupos que existem e
desejam florir para a vida. A justiça e o amor.
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5ª carta
ESPIRITUALIDADE DO E DA ASSESSOR/A
DA PASTORAL DA JUVENTUDE
Descobriu-se que os/as sobreviventes
tinham coração de místicos/as
Alguém, um dia, escreveu uma oração. A oração do assessor e da assessora da Pastoral da
Juventude. Não deixa de ser um poema. Não deixa de ser um grito. Não deixa de ser um programa de
vida. Quero rezar com você, Neotéfilo, essa oração. Desculpe meus pobres comentários. Se não lhe
servirem, deixe-os de lado.
“Sou, Senhor, alguém que, contemplando a vida escondida da juventude
de Teu Filho,
vive envolto na alegria de assessorar jovens,
sonhando integrá-los e integrá-las na tarefa de construir o Teu Reino”.
O ponto de partida é o jovem Jesus do qual os Evangelhos pouco ou quase nada falam. Assim
como a sociedade de hoje tem pouco a dizer da juventude. Na maioria das vezes eles são um problema
e é preciso arrancar, no escondido da juventude, a riqueza que ela é. Precisamos saber contemplar o
divino que há no jovem, sem ser ingênuo. A juventude é uma realidade teológica que nos dá alegria.
Sentir-se envolto na alegria dessa realidade é a primeira grande aventura espiritual de todo e de toda
assessora. O grande sonho é incluir toda ela na construção do Reino. No serviço à juventude
precisamos ser, como dizia o Pe.Vilson Basso, “reinocêntricos”.
“Sei que o sonho da juventude, na sua pureza,
é um pedaço do Teu sonho de amor.”
É uma graça saber encarar a juventude como o sacramento da novidade. Um dia escrevi um
livreto que intitulei “O divino no jovem” e não me arrependi. A juventude é uma realidade teológica à
espera de sua descoberta. Deus não sonhou um mundo “envelhecido”; Deus quer – apesar dos 80 anos
– que aprendamos a ver a eterna novidade do dia-a-dia. Basta saber adivinhar o sentido da juventude
como a encarnação viva e vibrante do novo. Como já disse, é uma graça.
“Não quero rezar por mim mas por ela (a juventude) que,
nas suas buscas,
é e pode ser uma companheira de caminhada.”
Caro Neotéfilo, sonhar com os outros realizando-se, é uma coisa de Deus. É saber contemplar a
beleza que ainda não brotou; é adivinhar a generosidade ainda abafada; é vislumbrar a alegria de
caminhar numa estrada recheada de irmãos e irmãs sonhando os mesmos sonhos.
“Que a juventude encontre em mim uma aliança
20
que já celebrei com ela, mesmo que ela não o saiba.”
Sempre nos comovemos recordando a aliança que Deus celebrou com o seu povo. Assim é o
assessor com relação à juventude. No escondido das coisas, a festa da aliança já aconteceu. Não
importa que a juventude o saiba. Um dia vai descobri-lo... Não é algo que se faz para convencer. É um
gesto de gratuidade. Podem, até, não dar importância. O importante é a aliança selada.
“Que eu seja fiel, nesta aliança,
assim como Tu,
nos altos e baixos da vida do Teu povo.”
Sabemos que a juventude também vive seus altos e baixos. Claro que não é o que gostaríamos
de ver. O importante é ver como Deus se comportou. Lembremo-nos da história da prostituta contada
pelo profeta Ezequiel (Ez 16, 1-63). Assim como Javé, assim deve ser quem trabalha com a juventude.
Neotéfilo, estou profundamente convencido que a juventude tem faro para perceber quem a ama e
quem não a ama.
“Senhor, Tu és, para nós, um Emanuel:
concede-me a graça de perceber os clamores
que saem do coração da juventude
e ser presença entre eles.”
Falamos muito da importância da mística da presença entre a juventude. Isso tem raízes
divinas. Todo assessor/a tem dentro de si a vocação emanuelina de estar com. Compreender isso é uma
graça. Não podemos vulgarizar o vigor da presença. Isso significa escutar; isso significa estudar; isso
significa conviver não para ser somente um deles, mas para ser o que eles desejam ser. É mais do que
curiosidade; é vontade de beber da beleza que a juventude encarna.
“Ensina-me a ouvir,
para que saiba discernir entre o bem e o mal.”
Vivemos cheio de comunicações, mas num mundo de monólogos. Fazer silêncio e escutar faz
parte da aventura de ser assessor. Sempre digo que rezar é fazer silêncio e escutar o que Deus tem a
nos dizer para sugerir-nos mais felicidade. Os gritos muitas vezes silenciados dos jovens estão à espera
de nossa escuta. Se a sociedade ouvisse mais os jovens, provavelmente seria bem melhor, mais fraterna
e com menos farisaísmos.
“Tu que disseste a Moisés que estavas com ele,
concede-me a graça de não ser grande a distância
entre mim e a juventude.”
Trata-se, efetivamente, de uma graça. O fazer-se próximo pode ser feito de muitas formas:
gostando, estando, lendo, acompanhando, participando, estudando, curiosando... A graça está em
querer fazer tudo isso e mais. Todos precisamos de presenças, mas a juventude muito mais. Não
porque “precise” mas porque vai percebendo que todo ser humano é feliz se for comunitário. Anote
isso, Neotéfilo. Para sua missão, é vital.
21
“Como Teu Filho é Caminho,
faze de mim uma estrada aberta,
comprometida e segura,
com a única pretensão de ser imagem de Jesus de Nazaré.”
A grande pretensão é viver o seguimento de Jesus e sonhar que a juventude veja essa nossa
vontade e nos perdoe quando somos medíocres na vivência coerente dessa proposta. É a única forma
de sermos trilhas para outros e outras. Essa “coisa” de modelo e de exemplo me encuca muito. Se atrás
de nós e se dentro de nós não estiver a imagem do Caminho, da Verdade e da Vida continuaremos
sendo sem significação.
“Concede-me um coração eucarístico,
capaz de doação sem limites:
transforma minhas debilidades e inseguranças.”
Vou aprendendo, prezado Neotéfilo, que celebrar a Eucaristia é comer e beber a nossa utopia.
Isso me fala muito: do amor sem medida, do grão de trigo que morre para dar fruto, da necessidade de
bebermos da fonte primeira, de sermos para os outros, de sabermos fazer da vida uma festa... Vivendo
assim vamos sendo perdoados e temos a coragem, também, de perdoar-nos em nossas mesquinharias.
Também o assessor/a enfrenta o tormento do apóstolo Paulo que dizia não fazer o bem que queria mas
o mal que não queria (Rom 7,19).
“Que tenha um coração de pastor
que se alegra em ver o outro crescer
na gana de abraçar o mundo a que tem direito.”
A mística do assessor/a é a do desaparecimento, de dar lugar ao outro e alegrar-se em ver o
outro e a outra explodindo para a vida, para a autonomia, para um universo em que se sente sujeito
responsável e alegre. Infelizmente nem sempre somos assim porque o “desaparecer” não é tranqüilo;
não é tranqüilo perceber que o outro/a foi capaz de ir mais além do que eu. Ver isso, contudo, é uma
alegria que não se explica. A mística do assessor/a é também a da vigilância do pastor/a. Cuidar da
juventude é como cuidar do universo. Não faltam os “assaltantes”; não faltam os que tem poder de
enganar.
“Senhor, que não fuja da urgência de ser profeta
e saiba deixar crescer, em mim,
a roseira bonita da sabedoria que vou encontrando
no teu coração de Pai e Mãe.”
São duas graças enormes que o assessor/a não pode deixar de pedir: a de ser profeta e a de ser
sábio. As duas dependem de Deus e de nós. A profecia tem, muitas vezes, o gosto amargo da dor; a
sabedoria tem, muitas vezes, o peso de um aprendizado não reconhecido. Contudo, caro Neotéfilo,
vamos em frente, nem sempre sabendo a hora, nem sempre calculando as conseqüências do gesto.
Talvez enxerguem, algum dia, a roseira que plantamos.
22
“Que eu saiba, no ministério da assessoria,
sujar as mãos na realidade
e plantar a política do cotidiano e da utopia.”
Duas outras graças: a graça de abraçar e enfrentar a realidade como ela é, em sua crueza, e a
graça de não perder de vista o horizonte da utopia. Ser assessor/a é saber espalhar, sempre, realismo e
esperança. Uma esperança que tenha raízes na eternidade; uma esperança de alguém que vê o que já
existe e espera o sempre esperado. Eduardo Galeano fala do papel do horizonte, de fazer caminhar.
Neotéfilo, seja muito feliz na vontade doida de comer horizontes...
“Derrama, Senhor, a Tua bênção sobre todos os assessores
e assessoras da Pastoral da Juventude.
Que o trabalho deles seja uma opção de vida
E que a juventude, para todos eles/as,
Seja uma fonte de eternos desafios.”
Assessor/a é quem sabe caminhar com os outros, também com seus colegas de ministério. A graça a ser
desejada é a do exercício da assessoria como opção de vida. É, ao mesmo tempo, um Dom, mas um Dom que
assusta. A tentação é pensar que isso não é possível, que as circunstâncias não vão permitir, que isso é para
poucos, que a realidade é outra etc. Uma coisa, no entanto, é certa: que a juventude não dixe nunca de ser um
eterno desafio que incomoda e não deixe ninguém acomodar-se fazendo da vida uma ausência de novidades.
“Abençoa, Senhor, os jovens que já encontrei
e a juventude que ainda vou encontrar.”
Assessor/a é quem sonha com juventude feliz, aquela que já encontrou e aquela que virá. Sonhar com
juventude não é voltar a ser o que não pode mais ser; é desejar que a novidade não morra; é sonhar que os
jovens não sejam “velhos”; é sonhar a espera da novidade do Reino. Muitas vezes fico chocado quando os
adultos só sabem dizer que trabalhar com jovens deve ser muito difícil, deixando a entender que é, praticamente,
impossível. Sei que você, Neotéfilo, não pensa assim. Oxalá nunca pense assim, de forma tão derrotada e tão
sem graça.
“Na alegria do Teu serviço,
Que eu nunca me esqueça da Mãe de Teu Filho.
Que Ela, junto com João Batista,
Me dêem a água necessária para saber animar a vida
Explodindo na sinceridade da juventude. Amém.”
Deus nos livre de que a figura de Maria e de João Batista apareçam aqui como simples “refrão” que nos
foi transmitido. Afinal, quem acompanhou a juventude de Jesus senão os dois? O coração dEla tem muito a
dizer... O coração de Batista deve saber muito bem porque afirmou que importava que Ele (Jesus) crescesse e
ele (João) ficasse amarrando as sandálias do primo. São duas fontes inspiradoras para quem se sente chamado a
trabalhar com jovens. Arrisco-me a dizer que essa é a espiritualidade do assessor/a. Para tudo que falta, o que
vale é a expressão do teu coração teologal.
23
6ª carta
FUNÇÕES E TIPOS DE ASSESSORES/AS
Há muitos membros,
mas o corpo é um só.
O assunto das funções e tipos de assessores/as mais do que delicado, é um assunto que exige
capacidade de adaptação e discernimento. A vontade é esclarecer alguns aspectos da assessoria na
Pastoral da Juventude. Se você, Neotéfilo, não tiver lido e estudado “Assessoria e Acompanhamento
na Pastoral da Juventude”7, é importante que o faça. Vou repetir dados daí, de forma sintética, mas
minha pretensão é outra. A pretensão é auxiliar no amadurecimento da figura do assessor/a na prática.
Tudo que foi dito anteriormente já implica em atitudes; precisamos ir mais adiante. A pergunta que se
ouve, apesar do que já foi dito, refere-se ao papel do assessor/a, isto é – como diz muito bem
“Assessoria e Acompanhamento” - sobre “o conjunto de atitudes, funções, posicionamentos e estilos
de vida e ação que (o assessor/a) põe em prática para o cumprimento de sua missão, em íntima e
coerente relação com seu próprio ser e com sua própria realidade”8. Vou distinguir algumas partes,
visando obter mais evidências sobre o papel do assessor/a. 1) Falarei de funções gerais do assessor/a;
2) Tentarei descrever diversos tipos de assessores/as, tomando em conta a preparação e a experiência;
3) Tentarei apresentar outros tipos de assessores/as considerando os diversos tipos de grupos de
jovens; 4) Vou atrever-me a sintetizar o que o assessor/a deve saber; 5) Apresentarei a assessoria como
um processo.
Funções gerais
Todo/a assessor/a, caro Neotéfilo, deve estar atento a várias dimensões:
a) à dimensão pessoal, cultivando a capacitação teológica, científica e técnica, preocupando-se
com sua formação integral. Independente de onde esteja, o assessor/a precisa cuidar de si
mesmo e de sua especificidade e priorizar momentos que sejam para ele/a.
b) à dimensão do acompanhamento pessoal ao jovem, ajudando-o na sua caminhada de fé, na
sua opção de vida e seus diversos relacionamentos. Este acompanhamento exige atenção e
disponibilidade;
c) à dimensão do acompanhamento ao grupo, percebendo seus processos, favorecendo uma
experiência comunitária de fé, desenvolvendo processos de formação integral, dando
atenção à formação das lideranças que vão surgindo, ajudando os jovens na organização,
fornecendo ao grupo uma visão ampla do trabalho com os jovens, vivendo com eles a
dimensão festiva da vida;
d) à dimensão do relacionamento com outros assessores/as não deixando de pertencer a uma
equipe de assessores para trocar experiências e conviver;
e) à dimensão do relacionamento com a comunidade, em nível social e eclesial, colaborando
num clima de inserção dos jovens e de aceitação da juventude por parte dos adultos,
fomentando a inserção social dos jovens.
São funções gerais que todo assessor/a precisa levar em conta. São funções que revelam o
coração de educador/a, de formador/a de cidadãos estando junto e atento a eles, carregando uma
proposta de vida. Por serem “gerais” não significa que estas funções não sejam importantes. Muita
7 São Paulo: CCJ, 1994, p. 15-21.
8 o. cit. p.15.
24
falha acontece nessas “orientações” simples que, por parecerem “conselhos”, não são levados a sério.
Está em jogo uma mística revelando-se nas pequenas coisas. São “coisas” que sabemos mas, de fato,
muitas vezes deixamos de curtir e dar-lhes a devida atenção.
Desejosos, iniciantes e maduros...
Acusam-me, prezado Neotéfilo, de insistir demasiadamente, por vezes, na idade destes agentes,
mas é por ela que inicio esta reflexão. Não é só “idade”; afirmo que o ministério da assessoria exige
“tempo”. Não há “assessor/a”, em nossa perspectiva, que não carregue uma experiência de vida e de
fé. Falamos de “maturidade” e, por mais que se possa questionar o fato, a “maturidade” é um fato que
se pode ver. Está na cara... Estamos falando de uma figura concreta, com um conjunto de
responsabilidades que não podem ser confiadas a qualquer um, embora, também na assessoria, não
possamos exigir demais. A assessoria exige vocação, exige preparo, exige tempo, exige coerência.
Há quem queira ser assessor/a, tem uma boa idade (mais de 24 anos), mas não tem experiência
de grupo, não sabe o que seja Pastoral da Juventude, não sabe o que é ser coordenação ou coordenador,
nunca participou de uma assembléia, carrega pouca formação religiosa, nunca ouviu falar de
acompanhamento... Vamos dizer que, apesar desses “limites”, ele pode ser assessor/a da Pastoral da
Juventude?
- “Mas ele tem um bom relacionamento, sabe lidar com a “moçada”, tem liderança...”
- Os critérios que nos orientam em nossas afirmações e decisões devem ter raiz em vários
espaços.
Uma afirmação que considero fundamental é que o ministério da assessoria supõe um processo
pessoal e grupal, um processo de fé e um processo de pedagogia. Devemos distinguir, no entanto,
alguns passos: há pessoas desejosas de sê-lo (que ótimo!); há assessores iniciantes (que ótimo!) e há
assessores “maduros” (que ótimo). Seria, contudo, muita irresponsabilidade não ter critérios claros, no
ministério da assessoria, que visem realização pessoal e eficácia. Os critérios objetivos, básicos,
relacionam-se à idade, à vivência de fé e ao conhecimento da Pastoral da Juventude em sua proposta
global. Não significa que o fato de ter 30 anos seja motivo suficiente para ser assessor/a; não significa
que o fato de ser religioso/a ou seminarista ou padre ou casado alguém seja, por isso, “assessor/a”.
Pode até acontecer que uma “pessoa mais vivida”, “com mais formação” capte o mistério da assessoria
com bastante rapidez e assuma o papel que lhe cabe. Pode, contudo, acontecer o contrário: não aceitar
a proposta, não concordar com o método, não acreditar nas opções pedagógicas. Vai ser assessor/a de
quê? Deve ficar bem claro que se trata de ser assessor de uma instituição que tem sua proposta, suas
instâncias, sua crença, sua metodologia etc. Alguém que não sabe ou rejeita essas “coisas todas” pode
ser assessor/a de outra instituição, mas não da Pastoral da Juventude.
Todo assessor/a é militante de uma causa pedagógica em prol da felicidade dos jovens. Está
convencido de que aquilo pelo qual luta e discute é libertador e o que pode haver de melhor para os
jovens, para a igreja e para a sociedade. Estamos falando de “pedagogos”; estamos falando de
educadores na fé. Estou insistindo nessas obviedades porque elas nem sempre são muito claras. Não
deixo de lado a convicção que tudo é processo, que há aspectos um tanto imponderáveis, mas não se
pode brincar com uma identidade, por mais nuanças que ela tenha. Recordo com emoção pessoas
muito concretas, preparadas, com experiência de anos, recusando serem “assessores/as” porque não se
sentem preparados. Nem sempre ficava claro para mim as razões dessa postura. O que sei é que está
em jogo um discernimento pessoal, grupal e institucional. A assessoria é mais do que uma função; é
uma vocação. Os critérios relacionam-se com a pessoa, com a vivência de fé dessa pessoa, com a
capacidade educativa, com o compromisso “institucional” e com uma decisão da pessoa e do grupo
que o/a rodeia numa perspectiva de fé.
25
Metidos em vários espaços
Como se vê, a figura do assessor é polissêmica, tomando coloridos muitos diversificados. Existem,
no entanto, ainda outros “tipos”. Quero referir-me aos assessores que acompanham realidades
específicas. Distingo, neste campo, quatro outros tipos de assessores/as:
a) os/as que acompanham os grupos das comunidades em geral. É a grande maioria. São grupos que
se reúnem nas sacristias, nos salões da comunidade etc. Não raras vezes são grupos com longa
história, formando uma quase “instituição”. Ser assessor desses grupos exige presença formativa,
presença articuladora, presença ponte... A Pastoral da Juventude corre certo perigo de visualizar
demasiadamente esse tipo de grupos. São grupos cuja característica é a inserção na comunidade em
geral, ajudando na liturgia, na catequese, oferecendo e animando momentos festivos. Há gente
metida nas associações existentes na comunidade, na organização pastoral da paróquia etc. Um
desafio do assessor/a é conseguir que os participantes desses grupos assumam a sua realidade
“específica” de trabalhador, de estudante etc. É muito importante garantir o planejamento e a
articulação desses grupos, ajudando-os a que vivam, de fato, uma formação integral e não caiam na
tentação de viverem uma fé desarticulada da realidade social.
b) os/as que acompanham grupos de estudantes. Fica claro que não tem quase nada a ver com o tipo
anterior. Os grupos se encontram nas escolas, a inserção deles se dá no mundo escolar, na
educação e no movimento estudantil. Muitos dos participantes de grupos tem pouca ou nenhuma
experiência “comunitária-paroquial”, destacando-se o papel que tem a preparação da crisma.
Estamos frente a um assessor que navega em outro mundo... São grupos de, no máximo, três anos,
enfrentam o desafio de serem, de fato, mais “estudantes” que genericamente “jovens”, são
decididamente adolescentes, o processo de educação na fé precisa acontecer em ambiente
“educacional”, a liderança se mostra mais na escola do que na comunidade etc. Não é hora de dizer
o que deve ser o assessor/a num contexto assim. O certo é que ele é muito importante, precisa ter
noção de processo, ser criativo, viver empapado de realidade estudantil e não deixar de lado tudo
que falamos, anteriormente, sobre a assessoria. É evidente que este/a assessor/a não pode navegar
sozinho, precisa aprender a construir uma articulação de estudantes e de grupos estudantis que seja
válida etc. A assessoria, neste espaço, exige clareza de identidade. Caso contrário, não haverá
felicidade. O fato de esse tipo de grupos estarem longe da paróquia, cabe ao assessor/a estar atento
para que não deixe de acontecer a inserção na igreja local e que os grupos amadureçam sua
pertença à comunidade eclesial.
c) os/as que acompanham grupos da realidade rural. É outro mundo que se apresenta para a
assessoria. O “espaço” que os grupos enfrentam é o vasto mundo do que chamamos de “roça”: os
problemas da terra, a questão dos agrotóxicos, o êxodo rural, as explorações existentes, as
cooperativas, a agricultura familiar, a vida das comunidades, a mística da terra etc. O desafio é
colaborar no processo de educação da fé a partir das realidades concretas. A tentação que se
apresenta é que os grupos “do interior” não assumam ou não saibam assumir a sua realidade
concreta para colocar tudo numa perspectiva de amadurecimento na fé. Ser assessor nesse espaço
exige medidas muito específicas e ciência clara do que se quer com um grupo de jovens nesse
espaço. Ao mesmo tempo que o assessor/a precisa estar empapado de “campo”, com suas belezas e
conflitos muito sérios, precisa descobrir como ser, ali, um educador na fé. É evidente que não vai
poder fazer isso sozinho. A convivência com outros assessores, mesmo que não estejam no mesmo
espaço, é fundamental. Precisamos de assessores/as que sejam “militantes” nestes diferentes
espaços. Isso não se dá de uma hora para outra. Exige condições de viabilidade, decisão e opção.
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d) os/as que acompanham os grupos de jovens trabalhadores, do meio popular. É um enorme
desafio. Em alguns lugares falam de “jovens do meio popular”, mas não é o suficiente. São
necessários assessores/as que auxiliem os grupos de jovens a assumirem a sua realidade de
trabalho, de “emprego”, de “salário”. Podemos imaginar as águas por onde esses assessores/as
deveriam navegar... Relações, capitalismo, sindicalismo, questões trabalhistas, sentido do trabalho
etc. Na Pastoral da Juventude ainda é uma utopia sonhar com jovens discutindo, para valer, essa
realidade. Isso vale tanto para os rapazes como para as moças. Para os que são do clero ou da vida
religiosa o desafio também é enorme. Está na hora de isso se tornar realidade. É um espaço onde,
mais do que em outros lugares, vale a complementaridade na assessoria.
e) os/as que acompanham grupos de universitários. É outro enorme desafio: o mundo da academia,
o mundo da ciência, o mundo do movimento estudantil, o mundo da cultura... Deixar essa tarefa
para outra pastoral que não seja a Pastoral da Juventude, é uma ilusão. Exige, por parte dos
assessores/as estarem “metidos” nesse campo. Não basta saber Teologia, não basta saber celebrar,
não basta ser professor/a. É preciso acreditar na possibilidade da vivência de um processo de
educação na fé com os jovens deste espaço seletivo, é verdade, mas real. Houve um tempo em que
se falava de “Pastoral Universitária”(os universitários sendo protagonistas) e de “Pastoral da
Universidade” (a instituição sendo a protagonista). Trata-se de formar profissionais com valores
evangélicos, em todos os campos; trata-se de formar cidadãos capazes de colocarem o saber a
serviço do povo, numa dimensão de fé.
Metidos em diversas instâncias
Há, ainda, outra tipologia de assessores/as. Referimo-nos, de modo especial, às diversas
instâncias organizativas que necessitam de assessores/as com capacidades e funções “específicas.
Desejamos referir-nos a cinco instâncias:
a) a instância mais fundamental é a assessoria aos “grupos de base”. Há assessores/as que ficam
nesta instância a vida inteira. Somente não digo “graças a Deus” se isso significa fechamento neste
pequeno e maravilhoso grupo porque tanto o grupo como o assessor/a precisam articular-se com
outros grupos. De preferência de modo orgânico, isto é, fazendo-se participar da igreja jovem
caminhando juntos de forma organizada. A organização é uma opção pedagógica que não pode ser
esquecida porque ela (a organização) é uma das melhores escolas de formação do jovem e do
assessor/a. Tudo que se falou de “mística” da assessoria, de atitude de assessor/a vale aqui
também. Nessa instância vale tudo: planejamento, formação integral, vivência de um processo,
forma criativa de ser, inserção social etc.
b) uma segunda instância para exercer o ministério da assessoria é a paróquia onde funcionam mais
grupos. Conheço paróquias com mais de 10 grupos de jovens. O passo mais acertado é garantir que
haja alguém que esteja próximo de cada grupo. Pode ser um adulto, pode ser um “animador” pode
ser através do próprio coordenador/a de grupo. O assessor/a, nesse caso, deve encontrar a forma de
acompanhar cada grupo e algumas lideranças que se vão projetando. Importantes são as visitas, o
fornecimento de subsídios para os grupos, reuniões de coordenação, planejamento paroquial etc.
Não vamos pretender dar “dicas” para cada caso. O importante é o assessor/a sentir-se responsável
e ter alguma palavra para cada situação. Ajuda para tal uma boa organização pessoal e a definição
de prioridades, tendo consciência do “campo” que lhe toca acompanhar. O mesmo vale, na sua
realidade específica, para um assessor que acompanha mais grupos de estudantes, trabalhadores
etc. Embora haja um relacionamento privilegiado com os coordenadores, o assessor/a não pode
deixar de lado os grupos como tais.
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c) uma outra instância sucede quando alguém é escolhido ou indicado para ser o assessor/a de
alguma coordenação, seja ela de paróquia, de diocese ou de regional. O importante é chegar,
através desta coordenação, para as bases. Trata-se, em geral, de reuniões de planejamento ou de
atividades programadas ou a serem programadas. Não é aconselhável alguém ficar somente neste
nível. Tornam-se especialmente importantes as “visitas”. Embora sejam visitas gratuitas, o
assessor/a sempre deve carregar nas mangas algum convite, alguma palavra, alguma orientação,
alguma informação do mundo mais amplo seja diocese, seja regional, seja organização nacional e
latino-americana. É através destes “comunicados” dados com sabor que se esconde a consciência
que o jovem e os grupos vão criando consciência de igreja e de sociedade. O assessor/a, por isso,
precisa acompanhar, saber das coisas, ler documentos, ler notícias, ler subsídios, repassar decisões
da coordenação etc. Isso vale para todos os tipos de assessores que vimos acima. Coisa triste é
você visitar um grupo e não ter nada a “revelar” ou a “confirmar”. A prática levará o assessor/a a
aperfeiçoar-se no planejamento, no conhecimento da realidade, no conhecimento de Teologia, na
forma cada vez mais madura de ser igreja, no conhecimento da realidade juvenil com sua cultura e
sua psicologia etc. É uma formação que se dá na ação. Isso não vale somente para a juventude.
Diria, até, que isso vale especialmente para quem aceitou assessorar grupos de jovens. Miserável o
assessor/a que se considera “formado”.
Os dez saberes de um/a assessor/a
Já ficou claro que o assessor/a vive em permanente formação. A todo instante se apresentam
novos desafios, novos gritos e novas leituras. Procurando elencar “coisas” que o assessor/a precisa
saber atrevo-me a citar algumas:
a) o assessor/a precisa saber, primeiramente, o que é Pastoral da Juventude. Não faltam
escritos sobre isso mas os “temas” mais importantes encontram-se em “Civilização do
Amor – Tarefa e Esperança”. Deveria ser um livro de cabeceira. Não há outra obra que
sistematize de forma sintética o que seja Pastoral da Juventude;
b) uma outra “coisa” que o assessor/a precisa saber refere-se à clareza quanto ao processo de
educação na fé proposto pela Pastoral da Juventude. Falamos de “clareza”; talvez
disséssemos melhor “conhecimento” teórico e prático. Uma das características do assessor/a
é a sistematização do que vive, do que vive seu grupo e do que vive a Pastoral como um
todo;
c) ter noção segura do que é “vida de grupo” com suas fases, exigências... resultando num
processo. Aqui valem tanto os conhecimentos pedagógicos como a capacidade de
percepção de aspectos psicológicos;
d) ter noção de psicologia do jovem e do adolescente, resultado de experiências, de vivências,
de leituras, de cursos...
e) ter noção do que seja “acompanhamento” individual e grupal. Se alguém não tiver pescado
nessas águas, pouco terá falar no seu contato com a juventude dos grupos. Sempre se diz,
com muita razão, que o assessor/a tem muito a ver com a memória histórica do grupo, da
paróquia, da diocese etc. É uma forma muito bonita de acompanhar;
f) ter noção de planejamento. Não basta o “mínimo”; é preciso meter-se neste campo com
consciência e ser capaz de “educar” nesta atividade;
g) ter conhecimento das “opções pedagógicas” da Pastoral da Juventude, sendo capaz de
vislumbrar a amplitude de cada uma delas, inclusive da opção metodológica. Estou
convencido que é um dos grandes segredos da personalidade de um assessor/a. Trata-se de
“saber” e não dizer de cor uma fórmula que não mexe no mais íntimo de mim. Trata-se de
um “ato de fé pedagógico” muito claro e de uma leitura da prática que se tem com a
juventude. Não vale tudo; nem tudo tem o mesmo peso.
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h) ter noção séria sobre a Igreja e sobre os diversos cenários em que ela navega, sabendo
posicionar-se. Falamos disso porque a experiência diz que é através do assessor/a que se
cria ou não se cria o sentido de pertença a essa “comunidade” que Jesus fundou;
i) ter noção séria sobre a sociedade em que vivemos, sabendo fazer análises de conjuntura.
Nenhum assessor/a tem direito a ser uma barata tonta no sistema que nos envolve. Isso
supõe ideologia, supõe política, supõe economia, supõe sociologia. Não se trata de ser um
“especialista”, mas alguém que tem uma postura definida.
Processo
Tudo que foi dito anteriormente leva a concluir uma coisa simples e misteriosa, amigo
Neotéfilo: a assessoria é um processo assumido, cultivado e perseverante. Não adianta forçar as coisas.
Não adianta insistir em quem não escutou um “chamado”. Não adianta insistir em quem, mesmo sem
dize-lo, não quer; em quem acha que o ministério da assessoria não lhe acrescenta nada. Observa-se,
também que há bons assessores/as que nunca tiveram experiência de grupo de base, que nunca
participaram de uma coordenação mas por razões as mais variadas são felizes na vivência desse
ministério.
Não se aprende a ser assessor/a sozinho. É uma escola; é uma caminhada; é uma travessia que
obedece à lógica de “coisas” que foram ditas aqui. Aprende-se a ser assessor/a atirando-se na água
para valer; no início talvez com resistências, mas depois... O ministério da assessoria não nasce de uma
“nomeação”: a “nomeação” até pode ajudar, mas não é o seu começo. Deve ficar claro que a assessoria
não é um cargo clerical, nascido do poder; ele é um serviço complementado, talvez, pelo
reconhecimento “oficial”. A assessoria é serviço, é vocação, é doação. Claro que carrega autoridade,
mas autoridade que não nasce de “normas” e “nomeações”. Ele é e pode tornar-se fruto de um “projeto
de vida”.
29
7ª Carta
ASSESSORIA E PROJETO DE VIDA
Carrego comigo, caro Neotéfilo, uma convicção cada vez mais profunda sobre a importância do
Projeto de Vida para todas as pessoas, especialmente para os jovens e, muito particularmente, para o
assessor/a de jovens. Sabemos que ao sistema neoliberal não interessam pessoas com convicçõs
profundas (só as que comungam com sua filosofia excludente e “tanatófila”, isto é, amante da morte).
Só personalidades “fortes”, com vontade de serem sujeitos de sua história, vão saber enfrentar o rolo
compressor do sistema que vivemos. O tempo da juventude é o tempo de a pessoa estruturar o que
deseja ser na vida. Isso vale para qualquer um: para quem está no ensino médio, para quem quer ser ou
é religioso/a, para quem é ou pensa ser seminarista, para todos. Podemos dizer enfaticamente que
faltam pessoas com projeto de vida definido, em todos os setores. Mesmo para os que foram
“comprados” ou “cooptados” pelo sistema (e talvez mais para eles) falta-lhes um projeto de vida
elaborado e assumido por eles e não imposto por ninguém. Quero insistir, aqui, na importância que
isso tem para quem sonha em viver o ministério da assessoria. Já insistimos em que a dedicação à
juventude precisa ser uma opção: um projeto de vida. O projeto de vida é tomar nas mãos a construção
de minha felicidade. Falo em “construção” e insisto nisso. A felicidade não é algo que cai do céu; ela é
resultado da alegria em “construir”.
Deve sair, em breve, uma publicação da Seção Juventude do CELAM intitulada “Proyecto de
Vida: Camino Vocacional de la Pastoral Juvenil – Aportes y Reflexiones”. Pode não ser o escrito mais
perfeito, mas é uma primeira sistematização, em nível de América Latina e de Pastoral da Juventude,
sobre a matéria. Num Curso de Assessores que acompanho há mais tempo, em Porto Alegre, exigimos
dos cursistas (nestes últimos anos) a elaboração de um projeto de vida pessoal e pastoral. No começo
não foi fácil. As reações são as mais diversas, mas, no final de um ano de trabalho, a grande maioria
reconhece que foi a parte mais importante do Curso. É sobre isso que desejo fazer algumas afirmações
para você, caro Neotéfilo. Sei que vai ser pouco, mas o assunto é importante demais para não falar
dele9.
Quero começar minha proposta concreta afirmando que a elaboração do Projeto de Vida tem
muito a ver com o projeto de Deus revelado nas Sagradas Escrituras. Inspirados neste projeto divino
apresento algumas motivações que nos animem na elaboração e no por em prática nosso projeto de
vida. São elementos já conhecidos mas que valem a pena serem recordados. Quero insistir em três
aspectos:
a) Deus tem um projeto
O Deus de nossos pais, prezado Neotéfilo, se apresenta como o Deus do caminho que acompanha
seu povo, que conta com as mulheres e os homens que se envolvem cada dia em seu projeto criador,
sonhando um universo feliz, habitado por uma humanidade justa e solidária. É o projeto do amor de
Deus Pai que caminha com seu povo, do Filho que se faz Caminho, Verdade e Vida; e do Espírito,
pelo qual não faltam, ao longo do caminho, as águas que revigoram a todos os que descobriram que a
vida é caminhar.
9 Dou-me a liberdade de aproveitar elementos que vão ser encontrados na publicação do CELAM.
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Um dos aspectos mais originais do Deus dos cristãos é que Ele se revela na história, de forma
progressiva e humana, fazendo um convite gratuito para relacionar-nos com Ele e a participar de Sua
vida. “Eu serei teu Deus e tu serás meu povo” (Ex. 6,8). Assim como o Deus dos cristãos é uma
Trindade, o Deus dos cristãos sonhou que as pessoas vivessem sua felicidade relacionando-se, isto é,
vivendo um processo que nunca termina, mas que, dentro da história, se vá encarnando em projetos de
vida que se constróem e amadurecem, obedecendo à dinâmica da perfeição. No Evangelho, Jesus nos
disse que devemos ser perfeitos, como é perfeito nosso Deus (Mt. 5,48), isto é, que vivamos um
projeto de vida que seja claro, firme, mas que vá-se aperfeiçoando dia por dia e crescendo em decisões
e exigências.
b) Jesus Cristo é a encarnação do projeto de Deus para o ser humano.
O projeto de Deus realiza-se, na história, em Jesus Cristo e no Espírito Santo (cfr. Ef 1,3-14). É um
projeto de salvação e realização plena. Um projeto para que todos sejam felizes, livres e gratuitos,
assim como é Deus Pai, assim como é Jesus Cristo, pela força amorosa do Espírito Santo.
Jesus Cristo teve um projeto de vida. Basta recordar o texto do Evangelho de Lucas (cfr. 4,18-21)
no qual Cristo assume e anuncia o projeto de vida que lhe vem do Espírito. Jesus construiu seu projeto
referindo-o ao projeto do Pai. “Sofrendo, aprendeu a obedecer” (Fil 2,8), porque seu desejo era “fazer
a vontade do Pai” (Jo 4,34). A vivência deste projeto caracterizou-se pelo diálogo e pela relação com o
Pai, junto com a abertura à sua história, identificando-se com as dores e as esperanças de seu povo que
“andava como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Mostrou com palavras e obras que Deus estava com os
pobres.
Este plano não foi fácil para Jesus Cristo. Jesus teve que discernir seu Projeto de Vida. Teve
necessidade da oração para encontrar a força interior que exigia seu projeto de vida e para buscar o
modo de realizá-lo. Seu lugar de discernimento foi o deserto. Seu grupo de vida, depois do lar de
Nazaré, foi à comunidade dos apóstolos. Com eles realiza experiências d evangelização, assumindo
com integridade sempre maior a vontade do Pai (cfr Mc 8, 27-30).
O centro do projeto de vida de Jesus é anunciar e realizar o Reino de Deus Pai. Suas primeiras
palavras ao anunciar sua vida pública são: “O Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam na
Boa Nova” (Mc 1,15). O Reino de Deus é uma atitude e uma prática, assim como deve ser qualquer
projeto de vida. O Reino, como o grande projeto de Deus, assumido e vivido por Jesus, é universal e os
portadores privilegiados dessa Boa Notícia são os pobres, os que se fazem como pobres e pequenos. O
projeto de Deus, anunciado e vivido por Cristo, denuncia as realidades de miséria que desprezam a
dignidade humana e anuncia a vivência da fraternidade, da justiça e da solidariedade que engrandecem
a pessoa humana. Jesus proclamou e viveu as bem-aventuranças. Nelas estão sua vida, sua proposta,
seu projeto de vida, convidando para uma resposta.
Para realizar sua missão Jesus reuniu um grupo de pessoas comuns, trabalhadoras, com as quais
quis viver a experiência do Reino. Com elas formou uma comunidade de discípulos: o grupo dos Doze
(cfr. Mc 3,13-19). O Reino é uma realidade comunitária.
c) O projeto de Jesus convida ao seguimento
Jesus, contudo, não só vive nem só anuncia o Reino de Deus. Ele convida ao seguimento. Basta
recordar o convite que formulou ao jovem rico que não teve a coragem de segui-lo (Mc. 10,17-27). A
proposta pareceu-lhe demasiadamente exigente. O seguimento de Jesus nasce de um encontro pessoal
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com o Senhor Ressuscitado; é fruto de um caminho realizado junto com Ele. O seguimento se dá num
dinamismo de conversão, tal como deve ser um verdadeiro projeto de vida.
O seguimento de Jesus é um compromisso que entusiasma. Quando se descobre que Deus não ama
a pessoas pelo que aparentam nem pelo que valem, nem pelo que dão, mas pelo que são não há mais
limites na doação gratuita e militante a favor dos/as outros/as. Nesse momento o projeto de vida se
torna militância e se torna vocação.
O Projeto de Vida de Jesus é um processo que todo cristão/ã deve abraçar. Para os/as jovens e os/as
adolescentes este projeto é certamente maravilhoso porque traz consigo o desejo de viver em
plenitude, porque leva consigo a vontade de aceitar-se e ser aceito gratuitamente, porque é um projeto
que, em sua vivência, nos faz sentir-nos úteis, e felizes; porque vibra nele o desejo de vivenciar um
mundo fraterno onde as pessoas são respeitadas e valorizadas.
Por isso a Pastoral da Juventude propõe o Projeto de Vida de Jesus como caminho de realização,
como Projeto de Vida plena e abundante para os/as jovens. O Projeto de Vida responde aos desejos
mais nobres e profundos de seus corações. No seguimento a Jesus os jovens poderão experimentar e
viver a vida em plenitude.
A diferença fundamental entre as pessoas se dá pela qualidade de seu projeto de vida, pelo tipo de
valores que os orienta, pela centralidade que ocupa em sua personalidade, pela tenacidade que gera
para alcançar estes valores e pela capacidade de resistência para manter vivo seu projeto frente às
contrariedades da vida.
Insistimos, por isso, na relação indissolúvel que deve existir entre o Projeto de Vida, a
Vocacionalidade (dimensão vocacional) do ser humano e a Militância. O Projeto de Vida é expressão
concreta de pessoas que se vão comprometendo, a partir da assunção de sua vocação, com a vida toda,
com a transformação da realidade e que se sentem chamadas a ser construtores de comunidade,
celebrantes do mundo e profetas de esperança ante os problemas do mundo, ao estilo de Jesus.
d) Desafios para a elaboração do projeto de vida
Antes de apresentar um esquema concreto de elaboração de um projeto de vida quero dizer-lhe,
amigo Neotéfilo, que esta elaboração nos põe numa prova de fogo porque vem carregada de situações
que nos desafiam e nos podem fazer desanimar. É necessário, por isso, Ter consciência deles e
enfrentá-los com decisão. Se conhecermos as situações adversas, podemos medir, com mais realismo,
nossas forças e, se estas estiverem fracas, revigorar-nos buscando apoio e ajuda. Conhecer nossos
desafios é uma atitude que ajuda a vencer o medo ao desconhecido.
1. O tempo. O primeiro desafio que se apresenta é o tempo. A constante atividade em
que vivem os/as assessores/as implica na tentação de não dedicar o tempo necessário para
refletir e planejar a vida, de forma que sejam atendidas adequadamente todas as dimensões.
“Tempo” implica reflexão e espaço necessários para partilhar com outros/as e com o
acompanhante. Essa dificuldade pode ser resolvida com uma organização que priorize o
equilíbrio pessoal sobre o ativismo alienante.
2. A superficialidade. É outro desafio. Elaborar um projeto de vida significa “descer” no
fundo da gente a fim de descobrir as motivações profundas, os chamados de Deus que se
encontram no mais íntimo do coração de cada ser humano para poder, assim, descobri-los e
acolhe-los como um convite à realização plena e à felicidade. Não podem existir, portanto,
32
atitudes superficiais em algo que envolve o mais profundo da pessoa e que exige, em sua
realização, por o coração.
3. A lógica neoliberal e capitalista. É o terceiro desafio. A sociedade na qual vivemos,
caro Neotéfilo, nos apresenta os valores do consumismo, o individualismo, o êxito que se mede
na capacidade econômica e nos convida a buscar o próprio proveito, fazendo-nos esquecer dos
que estão ao nosso lado e tudo que isso significa. O Projeto de Vida deve romper esta lógica e
converter-se em ferramenta de humanização para a pessoa que o elabora e para com todos os
quais ele se relaciona.
4. O conflito e a crise. A vivência de um projeto de vida marcado pelos valores do
Evangelho levará ao confronto com os valores que a sociedade neoliberal oferece. O
seguimento fiel de Jesus, na chave do Projeto de Vida, terá conseqüentemente sempre sua carga
de conflito e crise.
5. As estruturas fechadas e incoerentes. Uma situação que não podemos deixar de
nomear é que nem tudo que se encontra ao nosso redor favorece o crescimento maduro e o
compromisso. Muitas vezes encontraremos pessoas e instituições, como a família e a própria
Igreja, que não compreendem esta proposta e, até, com sua prática contradizem o que pregam.
Isso vale tanto para “leigos/as” como para “religiosos/as”. Por incrível que pareça, a família ou
a comunidade religiosa podem ser empecilhos para a elaboração de um projeto de vida
verdadeiro.
6. Os contextos assinalados pela violência e pela ausência da perspectiva de futuro. A
realidade de pobreza, a violência e a exclusão em que vivem amplos setores da população na
América Latina são fatores que negam, muitas vezes, a possibilidade de construir um futuro
diferente. O desespero e a insegurança marcam a vida de muitos/as e apresentar-lhes a proposta
do Projeto de Vida pode soar como uma loucura. Contudo, ele nos oferece a possibilidade de
enfrentar e superar esta situação dolorosa.
7. Espiritualismos que fogem da realidade e não geram compromisso. Eis outro desafio
que gostaria de citar porque algumas propostas de evangelização presentes na Igreja não levam
a uma fé encarnada nem ao seguimento de Jesus nas realidades em que estamos imersos. Será
um desafio permanente para a Pastoral da Juventude apresentar o seguimento de Jesus de forma
atraente e realista. Também para os assessores/as desta pastoral. Um seguimento que implica
conflito e cruz. Seguimento que exige uma fé encarnada na realidade, uma fé que se
compromete, uma fé assume a vida e a história com todos os seus desafios.
8. Ausência de acompanhamento para partilhar e confrontar a experiência de fé e a
prática pastoral. Estou dizendo, com isso, que a elaboração do Projeto de Vida exige
acompanhamento. A solidão na experiência militante e no discernimento do Projeto de Vida
leva consigo sérios riscos que devem ser evitados. Entre eles citaríamos a auto-suficiência e a
absolutização do ponto de vista pessoal. É um desafio abrir e acompanhar os espaços onde se
re-elabora, constantemente, o projeto de vida com a ajuda de outros/as, assim como oferecer
aos assessores/as ferramentas metodológicas adequadas para este fim.
9. Desarticulação entre a formação e a ação. A ação refletida é um eixo central na
proposta da formação da Pastoral da Juventude. Este exercício dará elementos vitais para a
elaboração do Projeto de Vida porque permite ao assessor/a encontrar-se a si mesmo, de cara
com a realidade que vive e com o papel que exerce ou pode exercer nela. Permite, também,
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descobrir a necessidade de uma formação permanente coerente com as necessidades que se vão
apresentando para assumir um compromisso de crescimento pessoal e de transformação da
realidade.
e) Passos para a elaboração do Projeto de Vida
Existem muitas propostas que podem facilitar a elaboração do Projeto de Vida. A experiência
da elaboração do Projeto de Vida não é uma atividade a mais na vida pessoal nem para o caminhar do
grupo já que, assumida, seria uma a obrigação ou uma carga asfixiante. Pelo contrário, o processo de
elaboração do Projeto pessoal de Vida é fruto de uma decisão pessoal, livre e consciente, que prioriza a
necessidade de amadurecer as próprias opções e de projetar a vida. Estamos falando de uma sabedoria
de vida mediante a qual a pessoa aprende a harmonizar as ferramentas com as quais realiza uma
análise global da realidade social na qual vive, visa um horizonte amplo de sentido humano satisfatório
e desenha um caminho a percorrer, prevendo recursos com os quais pode contar.
Ao querermos elaborar nosso Projeto de Vida precisamos cuidar de algumas referências
indispensáveis. Propomos as seguintes:
1. Onde estou? Como estou? A tomada de consciência da autobiografia. A elaboração da
biografia pessoal, as circunstâncias políticas, econômicas, culturais e eclesiais da própria
realidade, tanto a próxima como a mais ampla, para assim compreender e responder às
estruturas e ao funcionamento da sociedade.
2. Para onde quero ir? É importante visualizar os assim chamados “sonhos”, os horizontes, os
ideais que caracterizam a pessoa. O Projeto de Vida não é um recurso administrativo pessoal; é
como o salmo da própria vida. Quer ser um borrão do Evangelho que o assessor/a oferece aos
demais com sua própria vida. Nesse “sonho” plasmam-se as convicções de vida e o próprio
credo.
3. Quais são os recursos com os quais conto? Para o caminho faz-se necessária uma bagagem.
Falar de recursos tem a ver com a experiência de grupo no qual se participa, o projeto de
“pastoral” no qual se está comprometido, a profundidade espiritual, o acompanhamento com o
qual se pode contar, os níveis de estudo e formação nos quais se deve avançar. Inclusive os
recursos financeiros.
4. Como vou alcançar as metas? Um projeto precisa seu tempo para que se desenvolva
gradualmente. É oportuno estabelecer os objetivos: a curto, médio e longo prazo. Desse modo
distribuem-se as forças e as iniciativas para seguir avançando coerentemente.
f) Esquema concreto
Venho trabalhando há mais tempo, prezado Neotéfilo, no acompanhamento do Projeto de Vida dos
que fazem o Curso de Assessores no Instituto de Pastoral de Juventude (Porto Alegre-RS). Com a
ajuda de algumas pessoas chegamos à apresentação de um esquema que nos pareceu válido.
Apresentamos 8 passos:
1. Minha autobiografia de agente de pastoral, apontando mais o processo vivido do que o relato
de fatos acontecidos. Trata-se, realmente, de uma autobiografia refletida e interpretada, a partir de
pequeno/a. O que fazia? Uma autobiografia, de alguma forma “sistematizada”, percebendo os
“clamores” que me moviam, vendo realizar-se, já, “naquele tempo” o que hoje faço e sonho.
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2. Minha vivência de “mundo”. Qual é o “mundo” que vejo? Descrever, primeiramente, em
poucas linhas, o mundo que vejo sob o ponto de vista econômico, social, político, cultural e
religioso, apontando, numa visão ampla, as qualidades e os defeitos que consigo perceber através
da minha vivência. Procure fazer essa descrição de modo sintético, mas que expresse realmente o
que você observa e sabe.
3. Meu “sonho” de mundo. a) Diga em frases lapidares o mundo que você sonha sob todos os
pontos de vista. Qual a sociedade que você sonha? Como é a economia, a política, a vivência
social, religiosa, cultural etc. b) Descreva, também, em frases lapidares o tipo de homem/mulher
que você sonha, o tipo de sociedade, o tipo de vivência religiosa e cultural. Se você sonha
constituir uma família, como você a sonha? Que tipo de pai? Que tipo de mãe? Se você sonha ser
religioso/a, como é essa “vida religiosa”? Se você sonha alguma profissão, como é esse/a
profissional que você sonha? No mundo das “relações”, qual a pedagogia que você sonha?
4. Descrição de uma realidade concreta que você acompanha ou da qual faz parte, como agente
pastoral10. A) Descreva pormenorizadamente essa experiência, localizando-a, isto é, descrevendo:
1. o local em que esta experiência está inserida (paróquia, colégio, diocese...) com suas
características, necessidades...) 2. em que você trabalha, de fato, dizendo tudo que você faz aí,
destacando talvez alguns fatos e dizendo o porquê do destaque. É relato.
B) Procure fazer uma avaliação desta realidade concreta, pastoral onde você atua. Trata-se de
uma análise em dois níveis: em âmbito de contexto geral e de contexto pessoal. Valorizar, aqui, o
posicionamento de pessoas que questionam meu trabalho ou que têm condições de emperrar meu
processo. Por isso é importante apontar as constatações, descrever os desafios e carências e
descrever os avanços.
5. Considerando tudo isso, tente expressar:
a) As opções básicas que movem sua vida como cidadão/ã e como agente de pastoral.
b) As prioridades que, no meio de diferentes trabalhos, você julga que deve assumir para
sentir-se realizada/o.
c) Em poucas palavras, expressar o objetivo de sua prática pastoral. Este objetivo, pelo que
foi feito já anteriormente, tem sabor de conseqüência, de resposta, de compromisso amplo e
concreto ao mesmo tempo. O objetivo deve dizer muito para mim e ser, ao mesmo tempo,
válido para diferentes ações que vou fazer, sem perder uma coerência de vida. .
d) Procure elencar, de forma sintética, os princípios que vão fundamentar sua ação. É uma
espécie de ato de fé sob o ponto de vista teológico, político, sociológico, pedagógico e
econômico etc.
6. Modos de alcançar tudo isso.
Podem ser distinguidas as metas a serem atingidas e as estratégias que vou usar para alcançar
as metas. É importante recordar que estamos pensando em “formação integral”. Portanto, você
deve ter presente todos os aspectos da sua vida.
- Qual(is) a(s) metas(s) que você tem como “pessoa”, como “profissional”, como “família”,
como “religioso/a”? As metas vão ser a curto, médio e longo prazo. As metas correspondem
às atitudes.
10 Não se trata de voltar atrás mas de insistir em que o Projeto de Vida deve nascer da vida. Daquilo que sou e faço, no
concreto. Querendo, ou não, estamos naquilo que fazemos.
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- As estratégias correspondem aos “atos”, iniciativas concretas com datas, meios etc. Por
exemplo: vou completar o ensino médio e preparar-me para entrar e fazer o curso superior
(= meta). Vou fazer o Curso Supletivo porque já tenho mais idade, porque devo trabalhar,
vou fazer de noite. Onde? O que devo fazer para que isso se torne realidade. Até quando?
(= estratégia).
7. Programa de vida. Considerando as metas e as estratégias, qual o plano de ação que vai
mover minha vida? Importante distinguir vários aspectos: pessoal, familiar, pastoral, teológico,
formativo, econômico, afetivo etc.
8. Avaliação deste projeto de vida. O projeto de vida tem aspectos a serem mudados, melhorados,
acrescidos; há coisas que não mudam; outras são aprofundadas e confirmadas. De quando em
quando você vai retomar esse Projeto de Vida para ser avaliado? Quanto tempo você vai dar para
essa avaliação? Como se vai dar essa avaliação?
Nota: Pode haver muitas redações do Projeto de Vida. Tente datar e enumerar essas redações. Cada
nova redação supõe uma releitura das elaborações anteriores. Há aspectos que permanecem e
outros exigem atualização.
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Bibliografia
BASSO, Pe. Vilson. “Paixão e Mudança – Assessoria na Pastoral da Juventude”. São Paulo:
Paulinas, 1997.
BORAN, Jorge. “Juventude, o grande desafio”. São Paulo: Paulinas, 1982, p. 277-295.
BORAN, Jorge. “O Futuro tem Nome: Juventude”. São Paulo: Paulinas, 1994, p. 295-346.
CNBB SUL 3 – “Pastoral Universitária. Vinde e Vede”. São Leopoldo: UNISINOS, 1993.
CNBB, coleção Estudos (nº76). “Marco Referencial da Pastoral da Juventude do Brasil”. São
Paulo: Paulinas, 1998. P. 195-200.
DICK, Hilário. “Juventude faz história – Pastoral da Juventude no RS 1983-1993”. Porto Alegre:
Evangraf, 1995, p. 28-40.
IPJ, PORTO ALEGRE. “A Galera Estudantil – um desafio pastoral”. Porto Alegre: Evangraf,
1993, p. 53-58.
MIEC-JECI. “O ministério e a pedagogia do assessor da Pastoral Universitária”. Porto Alegre:
Evangraf, 1996.
SCHIO, Adilson. “Assessoria em novos tempos”. Porto Alegre: IPJ, 1997.
SEJ-CELAM. “Civilização do Amor: Tarefa e Esperança”. São Paulo: Paulinas, 1997, p. 272-293.
SEJ-CELAM. “Assessoria em Cinco Enfoques”. São Paulo: CCJ, 1994.
SEJ-CELAM. “Assessoria e Acompanhamento”. São Paulo: CCJ, 1994.
SETOR JUVENTUDE, CNBB. “Assessoria Vocacional a grupos de jovens”. São Paulo: CCJ e
Loyola, 2001.
SETOR JUVENTUDE, CNBB. “Formação Assessores”. São Paulo: CCJ, 1999.

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